Resumo
A Antiguidade Tardia é certamente um dos períodos mais importantes para a compreensão de nossa civilização e sua cultura. Berço do cristianismo e daquilo que viria a ser a civilização cristã ocidental, para nos restringirmos ao mundo latino, é neste período que surge e toma corpo, senão propriamente nossas estruturas materiais, em grande medida nossas estruturas mentais, uma vez que devemos ao cristianismo e sua principal corrente de pensamento desta época, a Patrística, o essencial não só de nosso credo religioso, mas mesmo da gênese de nosso modo e razão de pensamento. A cultura cristã, por sua vez, fora devedora de outras tradições religiosas e culturais, a partir das quais se edificou ao incorporá-las. Este processo deu-se, sobretudo, nesse período que nos ocupa e por meio de muitos daqueles que viriam a ser conhecidos como padres da Igreja.
Abstract
The Late Antiquity is certainly one of the most important periods for the understanding of our civilization and its culture. Cradle of the Christianity and of that that would come to be the western Christian civilization, for we restrict ourselves to the Latin world, it is in this period that appears and it takes body, or else properly our material structures, in our great measure mental structures, once we owed to the Christianity and its main current of thought of this time, the Patristic, the essential not only of our religious credo, but even of the genesis in our way and thought reason. The Christian culture, for its time, had been indebted of another religious and cultural tradition, being built to the incorporation of that another tradition. This process was developed above all in this period that occupies us and by means of many of those that would come to be known as priests of the Church.
Palavras-chave
Cristianismo – Cultura – Antiguidade Tardia
Keywords
Christianity – Culture – Late Antiquity
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A Antigüidade Tardia, como é sabido, esteve marcada por um espírito alicerçado em um forte ideal ascético e escatológico, que fundamentou em grande medida o ideário e as condutas dos primitivos cristãos. Partindo desta observação, poderemos entender a relação desconcertante, quando não antagônica, entre muitos dos primeiros padres da Igreja, e o saber secular, a cultura produzida e praticada pelo século.
A literatura patrística da Antigüidade Tardia ou por alguns de seus exemplares, tanto do Oriente quanto do Ocidente, demonstrou correntemente uma substancial resistência às expressões culturais mais refinadas de seu tempo, ou seja, ao saber erudito, ao espírito investigativo, filosófico, e às letras. O ideal cristão primitivo como sucessor e herdeiro do ideal evangélico deveria relegar a um segundo plano, quando não negar de todo, o saber do “mundo”, que, como as práticas sociais – família, sexo, cargos e dignidades – ligariam demasiadamente o homem ao temporal e o desviariam de seu objetivo maior: a vida celeste, que deveria ser conquistada ainda neste mundo, ainda que fosse tão somente pela negação deste último para estar plenamente a espreita do mundo que havia de vir.
Assim, afirmaria Paulo em sua Primeira Epístola ao Coríntios, que ele próprio não utilizaria recursos oratórios e nem da sabedoria erudita para falar de Cristo, pois
Na realidade, é aos maduros na fé que falamos de uma sabedoria que não foi dada por este mundo, nem pelas autoridades passageiras deste mundo. Ensinamos uma coisa misteriosa e escondida: a sabedoria de Deus, aquela que ele projetou desde o princípio do mundo para nos levar a sua glória [...] Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o espírito que vem de Deus, para conhecermos os dons que vem da graça de Deus. Para falar destes dons, não usamos a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas a linguagem que o espírito ensina, falando de realidades espirituais em termos espirituais [...]. (1Cor. 2 6-8, 12-13)
Percebe-se que a recusa aos estudos e ao saber secular seria estrita, pois o verdadeiro conhecimento parecia residir precisamente em sua antítese, na ignorância completa, que abria caminho e deixava lugar para o espírito humano se ocupar da sabedoria do espírito de Deus.
As obras patrísticas, inspiradas sobretudo na literatura bíblica e particularmente em Paulo, seriam ainda produzidas em ambientes tomados pela cultura helenística, tanto no Oriente com a língua grega, quanto no Ocidente e em suas regiões mais continentais com a língua e tradições romanas. Entenderiam assim, que esta seria a cultura a se condenar, porque proveniente de um meio demasiado ligado ao saber humanístico e filosófico, portanto temporal, além de ligado ao paganismo que também seria condenado e rechaçado pelos grupos cristãos, particularmente os mais radicais, como os monásticos.
Deste modo, ao mesmo tempo em que se repudiava a cultura erudita, de modo particular a helenística, por ser pagã e referir-se a temas e questões seculares, que, no mais, ainda que buscasse especular sob as coisas divinas, o fazia por um[a] meio “ilícito” e “ineficaz”, na medida em que se utilizaria de teorias, de obras literárias e filosóficas, e não da práxis espiritual, contemplativa, fundava-se concomitantemente uma outra “cultura”, edificada em uma “ciência espiritual”, onde, ainda que houvesse o uso de algum material para o estudo e reflexão, este seria tão somente a Bíblia e em segundo lugar os escritos dos Padres.
E para os mais austeros, nem mesmo estaria permitido o estudo investigativo das Sagradas Escrituras e dos demais escritos da tradição cristã, cuja utilização se prestaria tão somente para constituir-se em arma contra o demônio e seus ataques. A sabedoria única e verdadeira deveria ser dispensada pela providência de Deus, da contemplação pura e simples do Senhor, não do estudo, mas do dom da santidade e da contemplação (COLOMBÁS, 1989: 152). O verdadeiro sábio cristão seria assim o theodidactos, “instruído por Deus”, como o veremos por meio de Atanásio de Alexandria na Vita Antonii (ATANÁSIO DE ALEXANDRIA, 1988).
Assim o repúdio da cultura seria antes de tudo a negação de uma prática e tradição estabelecidas por uma elite intelectual, que possuía seus produtos e modelos especulativos bem precisos. Eram estes os filósofos, os historiadores e os literatos gregos e romanos, que segundo o ponto de vista destes ascetas, só sabiam cuidar das coisas temporais, puramente humanas, e quando se dedicavam ao conhecimento das coisas divinas o faziam por meio da atividade filosófica e das letras. Deste modo, se o cristianismo destes primeiros tempos negava o “mundo” e se pretendia realizável fora dele, tudo o que o comportava lhe seria insatisfatório. Daí que se negaria a cultura fundada no humano e em suas especulações e fundar-se-ia uma nova cultura, assentada a partir de então no mais antigo dos saberes, o do conhecimento prático do Senhor, pois, se o cristianismo não veio para conquistar o mundo e sim para tolerá-lo e dele se desvencilhar sempre que oportuno, por que cultivar seu saber e seu entendimento?
Todavia, o cristianismo em um momento preciso e fundamental conquistara a história e nesta se inserira, pois seu próprio Deus se encarnara e legara uma tradição, uma prática a ser vivenciada. Agora, a matéria consistirá na única característica que fará o cristão asceta dignar-se a lidar com especulações literárias, já que estas diziam respeito ao sagrado, ao espiritual, e isto era, convém lembrarmos, admissível e praticável por aqueles ascetas mais instruídos ou abertos a uma interpretação menos literal do texto bíblico. O saber lhes seria, portanto, um meio e não um fim, como vinha sendo até então, ainda que sob outras perspectivas, para a filosofia e as especulações humanísticas.
A Vita Antonii de Atanásio de Alexandria será o documento mais nítido deste ideal de recusa ao saber profano, uma vez que demonstrara com contundência as atitudes e mesmo as teorias desta recusa ao saber secular por parte dos primeiros monges, que, como veremos, teriam a partir de então sua atenção voltada quase totalmente aos textos sagrados do cristianismo, que no mais deveriam ser lidos como escritos revelados e reveladores de uma verdade absoluta acerca de Deus e de sua criação, portanto desprovida de críticas e atitudes investigativas.
Assim, segundo Atanásio, o solitário Antão desconheceria todo saber profano e seus representantes, os filósofos, provando em certa ocasião seu hagiografado, deviam reconhecer que a sabedoria das “coisas de Deus”, conquistada pelo solitário, estaria acima daquele saber que representavam, a cultura greco-romana, e a postura crítica e filosófica diante do mundo e mesmo da divindade. Antão receberia no monte onde residia a visita de dois filósofos que viriam interrogá-lo acerca de sua sabedoria, e embora o tenha “vencido”, ao convencê-los de seu poder sobrenatural, receberia novas visitas de tantos outros filósofos.
Outros, como estes (os filósofos), acercaram-se do monte exterior, com a intenção de mofar-se daquele que não tinha letras. E Antão lhes disse: Diz-me, que é anterior, o entendimento ou as letras? Quem é a causa de quem? A inteligência das letras, ou as letras da inteligência? Eles contestaram que o espírito era anterior, e que dele procede a sabedoria. E Antão replicou: ‘o que tem um espírito são não necessita estudar’ Ante estas palavras, eles e muitos outros estiveram atônitos e partiram assombrados de encontrar tanta sabedoria em um homem sem estudos. Seus modos estavam libertos de toda rusticidade, como seria de esperar em quem havia vivido e envelhecido nas montanhas. Era muito associável e agradável em seu trato. Suas palavras tinham o sabor do divino; sempre era fonte de gozo e nunca de discórdias, para os visitantes. (ATANÁSIO DE ALEXANDRIA, 1988: 73).
O asceta de Belém São Jerônimo, em epístola enviada a Eustóquia, uma de suas discípulas, nos indicaria um pensamento e uma concepção de igual temor e abandono à cultura secular. O lugar dado a partir de agora à literatura cristã bíblica e patrística deveria ser único e exclusivo na leitura e educação do cristão, e do monge em particular. Jerônimo que havia se desvencilhado dos bens e do convívio com o “mundo” não conseguiria, no entanto, se desapegar de sua biblioteca que conteria um grande número de obras clássicas. Levada consigo ao deserto, passaria a ocupar-lhe demasiadamente o tempo com as leituras dos autores clássicos que possuía.
Deste modo, o anacoreta de Belém desprezaria os autores cristãos que lhe pareceriam pouco cultos e dedicaria parte de seu tempo à leitura daquela tradição estranha e anterior ao cristianismo, em lugar da total dedicação às leituras e aos exercícios espirituais exigida pela vida acética e solitária. Esta conduta de Jerônimo seria seriamente repreendida por Deus, que exigiria de seu seguidor uma dedicação exclusiva às obras que somente a Ele e a sua história respeitassem, uma vez que, sofrendo de uma grave enfermidade, a Ele seria conduzido para que fosse castigado e orientado para uma existência mais estritamente cristã, o que lhe custaria o desapego total de sua cultura e erudição clássica, sem, é claro, que isto tenha se realizado real e efetivamente.
[...] De repente, fui arrebatado em espírito e arrastado diante do tribunal do Juiz. A luz ambiente era tão deslumbrante que, prostrado em terra, não ousava levantar os olhos. Interrogado sobre minha condição, respondi. ‘sou cristão’; mas, o que presidia disse: ‘Mentes, és cicerioniano e não cristão; onde esta teu tesouro, aí esta teu coração’(Mt 6,2) [...] (JERÔNIMO, 1993: Epístola 25)
Jerônimo seria açoitado e, novamente diante do Juiz, arrepender-se-ia de seu apego aos livros e autores profanos.
[...] Quanto a mim, vendo-me em situação tão crítica, estava disposto a prometer ainda mais. Por isso comecei a jurar em nome de Deus: ‘Senhor, dizia eu, se algum dia possuir obras profanas ou as ler, é como se te negasse’ Ao fazer este juramento, fui posto em liberdade e voltei a terra [...] possa eu jamais sofrer semelhante interrogatório! Ao despertar estava com os ombros machucados, e sentia a dor das feridas. Desde então, li os livros divinos com mais afinco do que lera outrora as obras dos mortais. (JERÔNIMO, 1993: Epístola 25)
Esta epístola de Jerônimo que pretendia dar a conhecer a Eustóquia a vida ascética e solitária, seu estado, suas formas e razões, se prestaria também a incitá-la, como aos demais leitores desta correspondência, particularmente os professos cristãos, a enxergar e a exercitar a prática dos estudos a partir do abandono da antiga cultura greco-romana pelo exclusivismo das obras cristãs, que embora contivessem, como é sabido, elementos e argumentos clássicos, já se encontrariam em grande medida naturalizados pela e para a causa do cristianismo.
No entanto, o próprio Jerônimo, que tivera que prestar contas a Deus por sua simpatia pelos autores clássicos, chegaria mesmo em outra ocasião a justificar e a testemunhar seu uso das obras clássicas e de tantos outros autores cristãos, como veremos mais abaixo.
Um reflexo desta nova “tendência cultural” inaugurada pelo cristianismo, que tornaria lícito somente as obras e autores cristãos, cujo uso ainda, muitas vezes, somente se restringiria a uma leitura piedosa e não especulativa, encontrara-se na educação aconselhada e organizada por estes mesmos ascetas. Garcia Colombás nos informará que nas agrupações monásticas destes primeiros séculos cristãos, como se sabe, incumbidas da educação de crianças e jovens entregues ou não ao estado monástico, o método de educação dispensada divergiria daquela encontrada até então nas escolas da antiguidade clássica. As regras de São Basílio, por exemplo, para exercitar a leitura da Bíblia, instruiria para que se ensinassem máximas, listas de nomes, pequenas histórias, retiradas desta mesma obra (COLOMBÁS, 1974: 305).
Jerônimo, preocupado com a educação das crianças e jovens cristãs, recomendara que lhes oferecessem para a leitura os textos bíblicos e os escritos dos Padres, devendo ainda ser os primeiros memorizados e lidos com freqüência. A oração, a participação em atos religiosos e as práticas de ascese também comporiam as atividades desta educação dirigida pelo asceta.
Entretanto assistiríamos mais do que um repúdio absoluto da cultura greco-romana, uma reutilização de seu conteúdo para a nova cultura cristã, ou seja, embora aquela sobrevivesse ao advento de Cristo, deveria tomar corpo neste e adaptar-se, inclusive para sua justificação.
E aqui são enfáticas as palavras de Santo Agostinho a este respeito
Pois tal como os egípcios não só possuíam ídolos e grandes cargas que o povo de Israel não podia senão detestar e evitar, também possuíam vasilhas e adornos de ouro e prata e vestimentas que o povo que saia do Egito reivindicou como destinados ao melhor uso, não levados pela sua própria decisão, senão por mandato divino, assim as doutrinas dos gentios não só contém criações inventadas e perniciosas e alforjas carregadas de esforço inútil, coisas todas que nós que saímos da sociedade dos gentios, sob a guia de Cristo, devemos não aceitar e evitar, senão também matérias dignas de aprendizagem adequadas para acender as verdades da fé e certas normas morais muito úteis e também que se encontram certas verdades sobre o culto de Deus. O cristão deve tomá-las com o justo fim de predicar o evangelho (AGOSTINHO DE HIPONA, 1969: 408).
Para predicar a verdade contida na literatura cristã, sobretudo a bíblica, poder-se-ia usar as doutrinas dos pagãos, sendo tal postura apenas permissível, caso preparassem para o entendimento daquela. Assistiríamos assim uma reorientação do saber antigo, greco-romano, para adequá-lo as verdades da fé cristã. Utilizar-se-iam obras clássicas desde que cristianizadas, desprovidas de seu sentido primitivo, original em sua essência, passando então a justificar as idéias cristãs, ou para servi-las de instrumento para seu bom entendimento e propagação – por exemplo por meio do trivium e do quadrivium – ajudando em sua escrita, seu bem falar e seu entendimento.
As obras clássicas fragmentadas e assim desprovidas de seu conteúdo e sentido mais amplo, rechaçadas pelo seu valor literário, estabelecedor de sua cultura, de suas tradições e crenças, virão a assistir o seu uso a partir de então para o conhecimento da língua latina, da história romana ou da geografia, das artes liberais ou mesmo de muitas de suas idéias, mas desde que ganhassem um sentido colaborador com o cristianismo.
São Jerônimo, que havia sido repreendido e castigado por Deus pelo uso dos autores pagãos, como vimos, e recomendava veementemente a seus leitores que também não os lessem, em outra ocasião professara abertamente sua consulta, chegando mesmo a justificar a sua utilização.
A respeito do que me perguntas no final da carta, porque em minhas obras ponho às vezes, exemplos da literatura profana e mancho a candura da Igreja com as imundícias dos gentis, aqui tens minha resposta em poucos palavras: nunca haverias perguntado isto se a ti mesmo não o dominara Túlio totalmente, se leras as Escrituras Santas e, deixando de lado a Volcacio, consultaras com assiduidade os intérpretes das mesmas.
Porque quem não sabe que nos rolos de Moisés e dos profetas há coisas tomadas dos livros dos gentis, e que Salomão colocou algumas questões aos filósofos de Tiro e lhe respondeu a outras. Daí que, no exórdio dos Provérbios, nos admoesta ele mesmo a que entendamos os decursos ou discursos??? da prudência e os artifícios das palavras, a parábola e a linguagem obscura, os ditos dos sábios e seus enigmas, coisas que pertencem propriamente aos dialéticos e aos filósofos. O mesmo apóstolo Paulo, em carta a Tito, se aproveitou do verso do poeta Epiménides [...]. (JERÔNIMO, 1993: Epístola 70)
Esta nova visão e prática da “cultura” inaugurada pelo cristianismo primitivo não se restringiram ao Oriente. Constituindo-se parte formadora e caracterizadora do ideal religioso cristão nascente, a atitude diante do despojar ou reorientar a cultura profana em função do conhecimento do sagrado cristão disseminou-se por praticamente todas as manifestações da religião e religiosidade cristã ocidental, a que acrescentamos aqui a Gália e a Hispânia. Quanto a esta região temos que sublimar a eminente figura de Isidoro de Sevilha.
O grande número da produção literária de Isidoro de Sevilha e, sobretudo, a multiplicidade de temas e questões que tratara, pois não apenas se restringira à teologia ou às demais questões relacionadas à Igreja e à fé cristã, mas buscara entender e dar a entender temas ligados à filosofia, literatura, história, cosmografia, medicina, física, ciências naturais, poesia, entre outros, nos indicariam que sua formação e trabalho intelectual compreendiam uma substancial bagagem literária clássica. A atitude do bispo de Sevilha em relação ao saber clássico seguirá assim aquela tendência já observada nos Padres anteriores, ora rechaçando-o categoricamente, ora aproveitando-o quando a autoridade daqueles convinham à fé cristã.
Escolas filosóficas clássicas, como o estoicismo e o neoplatonismo, por suas naturezas mesmas, seriam as mais absorvidas pela teologia cristã. Isidoro, todavia, e talvez como um traço singular frente a outros padres bem mais “conservadores” da nova ordem, não deixaria em algumas ocasiões de se referir positivamente aos pensadores antigos e fazer uso deles por eles mesmos. (SEBASTÍAN, 1982: 92)
O saber e a cultura promovida por Isidoro de Sevilha no Reino visigodo o colocaria em um preeminente papel, não só de intelectual, mas também de educador e, tanto do clero – regular e secular, quanto dos laicos (DOMINGUEZ DE VAL, 1970: 8). As Etimologias demonstram-nos esta sua preocupação de promover uma cultura mais geral. A dedicação às artes liberais que compõe seus três primeiros livros nos indicaria que Isidoro se preocuparia em instruir seus múltiplos leitores, dando-lhes os alicerces para o aprendizado, tanto do sagrado, quanto do secular, este, entretanto, desde que sob uma ótica cristã, como já salientamos.
Esta obra demonstra, por exemplo, o interesse de Isidoro por uma cultura mais geral, ou seja, não somente por aquela que concernia, de modo explícito, ao cristianismo. Promoveria, não obstante, o gosto pela história, trataria das ciências humanas, naturais, da filosofia e das mais variadas ocorrências da vida material e do cotidiano. Dispensaria um saber enciclopédico, o primeiro que assistira a cristandade (QUILES, 1965: 53). Ao mesmo tempo, as Etimologias seriam um dos mais importantes salvo-condutos das obras e dos autores pagãos para a medievalidade, não somente porque os conteriam, mas porque demonstrariam sua utilização, sua aplicabilidade para este novo meio.
Deste modo, pudera afirmar Carmem Codoñer, que o impacto de Isidoro sobre seu tempo e mesmo em épocas posteriores tem sua origem no inesperado e desusado interesse pela cultura, não necessariamente eclesiástica, nem política, mas sim a entendida no sentido profano. Contudo Isidoro, seguindo a seus predecessores, padres latinos e orientais, viria a fazer um uso não indiscriminado da cultura clássica, pois seus autores e obras seriam utilizados desde que auxiliassem ao entendimento das Sagradas Escrituras, uma vez que [...] os livros são um legado cultural que a cada período são objetos de leituras distintas e inclusive encontradas. Há leituras de época, leituras pessoais dentro das épocas. Também há modos de ler. Não se lê gramática por prazer, senão para poder desfrutar das leituras de outros livros [...] (MERINO, 2002: 109).
Desse modo, Isidoro, no terceiro livro das Sentenças assim admoestava “[...] não é bom ler as fabulas dos poetas, porque com o afável das fábulas vazias se desperta na mente o apetite da voluptuosidade. Não somente se sacrifica aos demônios, oferecendo-lhes incenso, senão também recebendo com agrado suas palavras [...]”. (ISIDORO DE SEVILHA, 1991: 89). Esta mesma repreensão encontrara-se em sua Regula Monachorum “[...] O monge não deve ler livro de autores pagãos ou hereges, pois é preferível ignorar suas doutrinas perniciosas que cair no laço de seus erros pela própria experiência [...]” (ISIDORO DE SEVILHA, 1971: 103).
Para Isidoro de Sevilha, a cultura clássica seria um bem reservado àqueles que dela soubessem fazer uso, ou seja, soubessem desprovê-la, ou mesmo e anteriormente, provê-las, dos “erros”, dos “demônios”, ao cristianizá-la. Feito isto, poder-se-ia realizar um uso seguro, preciso e conveniente com a nova fé e seus alicerces que se inaugurariam. Aqui, o próprio se inseriria com competência e autoridade singulares.
Assim, o cristianismo que inauguraria uma nova época criaria um novo modo de ler as obras daquela anterior, modo este conduzido e arrazoado pela mais eminente mentora destes novos tempos – a Igreja – que se auto impôs a condição de porta-voz desta nova tradição cultural – o cristianismo.
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Fontes e bibliografia
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