Mirabilia 6

Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval
Journal of Ancient and Medieval History
December 2006

ISSN 1676-5818

Direção - Board of Directors
Ricardo da COSTA
Moisés Romanazzi TÔRRES
Adriana ZIERER

COSTA, Ricardo da (coord.). A educação e a cultura laica na Idade Média
La educación y la cultura laica en la Edad Media
The educacion and secular culture in the Middle Ages

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Apresentação

Ricardo da Costa (Ufes)


A Idade Média é conhecida por ser o tempo da religiosidade, do cristianismo, enfim, da fé. Costumeiramente pouca ênfase é dada ao mundo laico e às suas manifestações (tanto nos documentos escritos quanto imagéticos). Em contrapartida, hoje são muitos os estudos que se dedicam à educação medieval. Portanto, para esse novo volume da Mirabilia, decidimos fundir os dois temas em um só, e oferecer ao leitor de língua portuguesa um conjunto de trabalhos que abordam distintos aspectos da cultura laica e da educação.

Nosso objetivo é proporcionar ao leitor de língua portuguesa uma outra perspectiva da Idade Média: a de um mundo apenas parcialmente cristianizado, de um cristianismo de verniz, que poucas vezes conseguiu alcançar os substratos mais profundos do pensamento dos homens de então. Assim, apresento nossos autores e seus textos.

Ronaldo Amaral analisa o Saber e a Educação na Antigüidade Tardia a partir da relação dos Padres monásticos com a cultura greco-romana, especialmente Atanásio de Alexandria, São Jerônimo e Isidoro de Sevilha.

O artigo de Ofelia Manzi y Patricia Grau-Dieckmann (Universidad de Buenos Aires), Los textos apócrifos en la iconografía cristiana, analisa as novas formas iconográficas do século IV e que se baseiam nos Evangelhos apócrifos.

Carlile Lanzieri Júnior apresenta um dos primeiros trabalhos em português sobre Guiberto de Nogent (1055-1125). Seu artigo, Formação, obediência e humanismo: considerações sobre a educação infantil medieval nas Monodies do abade Guiberto de Nogent (séc. XII)”, aborda várias e interessantes facetas da educação monástica do período imediatamente anterior à explosão das universidades.

O artigo de Hilda Gomes Dutra Magalhães (UFT), Eliane Cristina Testa (UFT) e Izabel Cristina dos Santos Teixeira (UFT), intitulado O imaginário cristão nas novelas de cavalaria e nas cantigas de amor, trata da influência da educação cristã no imaginário laico medieval, a partir de A demanda do Santo Graal e das cantigas de amor produzidas a partir do século XII. As autoras concluem que apesar da influência da Igreja, substratos das tradições culturais anteriores ao cristianismo se desenvolveram no imaginário medieval.

Terezinha Oliveira (DFE/PPE/UEM) resgata a Memória da Universidade medieval através de três autores: Savigny, Steenberghen e Jacques Verger, para assim dar seu próprio olhar e lembrança de nossa milenar instituição, lembrança essa que é uma marca, segundo a autora, de nosso presente.

Meu trabalho na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) teve como um de seus pilares a disponibilidade do trabalho de pesquisa ao corpo discente. Em outras palavras, abri as portas para alunos desejosos de iniciarem-se no verdadeiro estudo do passado: o trabalho com as fontes. Um resultado desse investimento humano foi o trabalho com a graduanda e bolsista do CNPq Nayhara Sepulcri, intitulado A donzela que não podia ouvir falar de foder” e “Da mulher a quem arrancaram os colhões”: dois fabliaux e as questões do corpo e da condição feminina na Idade Média (sécs. XIII-XIV). Nele, analisamos os fabliaux, gênero literário profano, para vislumbrar a condição feminina medieval. O resultado foi bastante diferente da ladainha mulher-sofredora-oprimida muitas vezes apresentada.

Álvaro Alfredo Bragança Júnior (UFRJ) trouxe outra interessante contribuição para a Mirabilia: um estudo sobre os provérbios medievais, no qual se insere na temática de nosso volume e analisa a apropriação da cultura laica pelo discurso religioso. Há tempos o Prof. Álvaro Bragança trabalha com a paremiologia medieval, sempre com instigantes e ousadas interpretações, aproximando os textos literários da realidade histórica. Sentimo-nos honrados com esse seu presente para Mirabilia 6.

Gerard Marí i Brull (Universitat de Barcelona), como grande especialista catalão do tema, recupera e renova a tradição heráldica medieval com seu artigo Heráldica medieval: una creación cultural para una sociedad laica, onde aborda suas origens históricas, a linguagem específica da descrição heráldica e a transmissão desse importante conhecimento, historicamente alheio às manifestações culturais religiosas.

Moisés Romanazzi Tôrres (UFSJ) nos oferece outra análise do tema em que é um notável especialista: o pensamento de Dante Alighieri. No Convivio e na obra De Monarchia, Romanazzi nos informa que Dante traçou sua ética, de cunho aristocrático e elitista. Dante propôs o governante-filósofo, incumbido de guiar as multidões humanas à felicidade e perfeição terrestres.

Esses são os textos que ora apresentamos ao público. Agradecemos sobremaneira aos autores que nobilitaram mais esse nosso esforço em difundir a História Antiga e Medieval, e esperamos que você, caro leitor, aprecie mais essa iniciativa da Revista Mirabilia.

 

Ricardo da Costa (Ufes)

 

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