Revista Mirabilia 5

As funções sociais e políticas do bom cavaleiro no Livro da Ordem de Cavalaria (c. 1279-1283)
de Ramon Llull (1232-1316)

Danielle Werneck Nunes
Ricardo da Costa (Ufes)


Uma das imagens mais recorrentes para representar os ideais cavaleirescos: um cavaleiro combatendo um grifo,
símbolo das forças perversas e malignas. Catedral de Barcelona (séc. XIII).


“Todo cavaleiro, qualquer que seja, deve preservar três coisas neste mundo: honra, bens e vida. Deve colocar os bens e a vida em prol da preservação da honra; se alguém lhe quiser arrebatar os bens, exporá a vida para preservá-los. E em prol da vida, colocará a honra e os bens.” (MARTORELL, 2004: 269)

“(...) o homem mais solícito do mundo, amante e protetor do bem público, arrimo dos desamparados, auxílio dos enfermos.” (MARTORELL, 2004: 298).


Quem era o cavaleiro? Quais valores e habilidades ele deveria possuir para ser considerado um bom cavaleiro? Qual espaço ele ocupava na sociedade da época? Ramon Llull dedicou uma de suas obras para falar sobre a cavalaria: o Livro da Ordem de Cavalaria, texto provavelmente escrito entre 1279 e 1283. Além de não termos comprovações sobre a data da redação do texto, o local também é desconhecido. Somente a partir de 1294 Llull passou a indicar o local e a data de redação de suas obras. Isso contribuiu sobremaneira para que uma cronologia da produção luliana fosse feita e também para que o itinerário percorrido pelo beato em suas andanças fosse conhecido (COSTA, 2002: 308).

Essa atitude de não assinar as obras foi uma escolha de Llull, um homem de atitudes humildes e equilibradas. Como partícipe e conhecedor das correntes do século XIII, o pensamento luliano demonstra características da doutrina de duas ordens mendicantes: apresenta o método rigoroso dos dominicanos e a intensa piedade tipicamente franciscana (HILLGARTH, 1998: 39). Quando o beato percebeu que os textos poderiam ajudá-lo na difusão de sua Arte, começou a assinar os livros que escrevia (SANTANACH, 2000: 23).

A Arte luliana era uma tentativa de unificar todo o pensamento da cultura medieval e um instrumento para investigar a verdade das criaturas, tendo como pressuposto a verdade de Deus. Era uma arte criada com o principal objetivo de converter os infiéis. Na verdade, era mais que uma doutrina, constituía uma técnica, um sistema, um meio técnico de exposição científica. De acordo com Llull, essa Arte teria cinco usos: 1) conhecer e amar a Deus; 2) unir-se às virtudes e odiar os vícios; 3) confrontar as opiniões errôneas dos infiéis por meio das “razões convincentes”; 4) formular e resolver questões e 5) poder adquirir outras ciências em um breve espaço de tempo, tirando as conclusões necessárias. Isso fazia da Arte luliana a “ciência das ciências”, que proporcionava um ordenamento preciso e racional de todo o conhecimento (COSTA, 2001: p. 23-25).

De acordo com o Catálogo Cronológico das Obras de Ramon Llull, desenvolvido por Anthony Bonner, essa obra está inserida na segunda fase da produção luliana, chamada quaternária, que abarca os anos de 1274 a 1289. Esta se divide em duas outras etapas da produção: Ciclo da Ars compediosa inviniendi veritatem (1274-1283) e Ciclo da l’Art demonstrativa (1283-1289). A redação do Livro da Ordem de Cavalaria insere-se no início do primeiro ciclo dessa segunda etapa da produção do maiorquino. As outras fases são: pré-artística (1271-1274), fim da época de estudos do beato, fase ternária (1290-1308), e pós-artística (1308-1315). Porém, as duas últimas fases são as mais produtivas.

Nesses anos, Llull buscou facilitar a compreensão de sua Arte e se dedicou à campanha anti-averroísta. Um dos mais célebres filósofos árabes da Idade Média, Averróis, defendia a tese da existência de um intelecto único para todo o gênero humano, sendo as almas individuais perecíveis. Acreditava ainda na eternidade da matéria e do mundo criadas por Deus desde a eternidade através da emanação. Essas teses foram severamente combatidas pelos pensadores da cristandade. Ramon Llull dedicou várias obras contra o pensamento do filósofo muçulmano (JAULENT, 2001: 26-28).

O Livro da Ordem de Cavalaria foi originalmente escrito em catalão e amplamente divulgado em riquíssimos manuscritos franceses e também em diversas edições em outros idiomas (YATES, 1985: 71). Ele apresenta características doutrinárias e apologéticas, assim como toda a filosofia e teologia lulianas (COSTA, 2000: XXV). Com exceção do prólogo e do quinto capítulo - que respectivamente apresentam uma narrativa literária e alegórica - o Livro da Ordem de Cavalaria tem uma argumentação dialética dos ideais propostos pelo beato: para que os cavaleiros compreendessem claramente as suas funções, a posição social que ocupavam, o valor da ordem e a ética que deveria reger esse grupo. A ética cavaleiresca luliana era o exercício das virtudes baseada na aplicação da Arte, mais precisamente, na doutrina da primeira e Segunda intenção, base do pensamento luliano.

Segundo Llull, quando Deus criou o homem, ordenou que nele existissem duas intenções: pela primeira intenção o indivíduo deveria honrar, servir e conhecer a bondade divina. Através da segunda intenção, ele alcançaria todos os bens possíveis neste mundo e seria digno da primeira intenção. Sendo esta a mais nobre, o homem deveria fazer todas as suas obras por esse virtuoso movimento. O beato dedicou uma de suas obras para exposição dessa doutrina: o Livro da Intenção.

O Livro da Ordem de Cavalaria indica que a cavalaria foi criada para que o ofício de cavaleiro existisse. Essa doutrina fundamentava as intenções do nascimento da ordem: a primeira era restabelecer a justiça no povo de Deus e assim combater o erro e o turvamento; a segunda, praticar tudo que contribuísse para recuperar a honra e a ordem. Por isso, se o cavaleiro agisse de maneira contrária aos preceitos desse estatuto, não poderia ser considerado um verdadeiro cavaleiro (RAMON LLULL, 2000: 23).

A obra foi escrita “(...) para retornar a devoção e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve ter para manter a sua Ordem” (RAMON LLULL, 2000: 11). Llull acreditava que, redigindo uma obra com um conteúdo doutrinário e didático, poderia iluminar o caminho dos novos pretendentes à ordem. Com a leitura do manual, eles estariam plenos de valores espirituais, éticos e morais. O beato considerava que tanto a cavalaria quanto o povo cristão estavam totalmente perdidos e era preciso trazer o “rebanho de volta” e – especialmente – iluminar este rebanho. A cavalaria deveria estar a serviço da fé cristã, pois a sua principal meta era lutar contra os erros dos infiéis (COSTA, 2001: 27).

E o cavaleiro? Voltemos então às questões propostas no início desse trabalho: quem era o cavaleiro? De acordo com o pensamento luliano, o cavaleiro era um homem eleito entre mil homens para possuir o ofício da cavalaria. Ser um cavaleiro era um ofício de grande nobreza e que agradava muito a Deus (OLIVER, 1958: 182). A primeira parte da obra, intitulada “Do começo da cavalaria”, expõe essa eleição da seguinte forma: no início houve grande falta de virtudes no mundo e os vícios cresciam em abundância entre os homens de Deus. Então, todo o povo foi dividido em grupos de mil, e destes, era escolhido aquele que era “(...) mais amável, mais sábio, mais leal e mais forte, e com mais nobre coragem, com mais ensinamentos e de bons modos que todos os outros” (RAMON LLULL, 2000: 13).

Estava eleito o cavaleiro: o melhor dos homens, que reuniria em si todas as capacidades do ofício das armas e todas as virtudes do espírito (BRAGANÇA JÚNIOR). Ele seria servido pela mais nobre besta – o cavalo – e, por isso, seria chamado cavaleiro. O cavalo fora eleito pelo homem, pois “(...) era a mais bela besta e a mais veloz, e a que pudesse sustentar maior trabalho” (RAMON LLULL, 2000: 13). Sendo o cavaleiro tão virtuoso e cheio de nobreza, deveria também possuir as armas mais convenientes para o combate e para defender-se das feridas e da morte. Llull dedicou o V capítulo do Livro da Ordem de Cavalaria para uma cuidadosa descrição alegórica das armas e das suas funções. Faz uma interessante analogia dos formatos das armas com símbolos cristãos.

Por ter sido eleito por sua “nobreza de coragem e bons costumes”, o cavaleiro deveria ser “amado e temido pelas gentes”. Pelo amor, sentimento nobre, a caridade retornaria ao mundo; pelo temor, a verdade e a justiça venceriam o erro e o turvamento em que estavam imersos o mundo e seus habitantes. O Livro da Ordem de Cavalaria é um manual voltado para a educação dos futuros cavaleiros, chamados escudeiros, onde Llull demonstra os comportamentos mais justos a partir daquilo que era errado e “torto”. Utilizou os chamados exempla, típicos em narrativas do século XIII. A partir deles, era possível para o leitor fazer uma análise mais profunda e próxima da realidade da vida cotidiana. O exemplum luliano sempre era realista, apesar de não pretender ter o valor de um documento histórico (COSTA).

De maneira geral, o cavaleiro era um guerreiro que teve seu afã agressivo apaziguado pela Igreja. A partir do século X, esta passou a controlar o comportamento das pessoas, formulando a imagem exemplar que a sociedade deveria ter. O comportamento violento e muito agressivo do grupo cavaleiresco levou à necessidade do estabelecimento de uma ordem, um estatuto para reger a vida das armas (RUBIÓ, 2001: 82).

Quando Ramon Llull escreveu o Livro da Ordem de Cavalaria, esta já era uma ordem plenamente estabelecida na sociedade medieval. Já estava totalmente associada à nobreza, com regras a serem rigidamente seguidas. Era também um grupo que tinha sua linhagem baseada na hereditariedade. (COSTA) O século XII legitimou os termos que evidenciavam a divisão da sociedade em três ordens: os oratores (os que oravam, os clérigos, mediadores entre o mundo terreno e o mundo celestial), os bellatores (guerreiros responsáveis pela defesa da sociedade, os cavaleiros) e os laboratores (a mão-de-obra servil que, por seu esforço, alimentava os demais) (FRANCO JR., 2002: 89-90). Llull participava dessa visão tradicional de uma sociedade tripartida. De acordo com um escrito do bispo Adalberon de Laon (977-1030), os cavaleiros eram os protetores das igrejas e defensores dos poderosos e dos fracos (1982).

Em um contínuo processo de cristianização, a instituição cavaleiresca perdeu a batalha para as campanhas eclesiásticas, como a Paz de Deus (século X) e a Trégua de Deus (século XI). Ambas objetivavam pôr fim à violência atroz praticada pelos cavaleiros contra a população desarmada. Mais tarde, a Igreja também estabeleceu um juramento sobre relíquias sagradas: o cavaleiro prometia não invadir igrejas, aldeias nem castelos; não roubar, não atacar clérigos ou monges, homens ou mulheres; não apoiar ladrões, e muito menos matar (COSTA, 2001: 20). Esta última regra tinha uma exceção: como o cavaleiro fora promovido ao status de protetor da população e dos territórios, caso estivesse em luta pela defesa de alguém ou da santa fé cristã, poderia aprisionar e matar seu oponente sem correr o risco de ser excomungado ou repreendido. Ele era agora um “vassalo de Deus”, que possuía um ofício muito honrado e necessário para o bom regimento do mundo.

Ramon Llull mostrava-se mais favorável ao combate espiritual, levado à frente através das razões necessárias. O beato devotava grande crença na conversão pelo poder das palavras. Por isso, insistia em aprender as línguas dos infiéis para atuar em uma “cruzada espiritual” (GER, 2000: 663). Llull não defendia uma conversão pela força e pela coerção, pois Deus desejava que seus fiéis viessem a Ele por vontade própria. Essa defesa que Llull fazia do uso das armas espirituais e das armas intelectuais demonstrava que ele condenava totalmente a violência contra os infiéis. O beato propunha uma conversão através do amor (SUGRANYES DE FRANCH, S/D: 279).

Porém, Llull desejava empreender uma reforma na sociedade baseada na religião católica, e para isso ser levado à frente, o uso das armas seria bastante útil. Houve então uma mudança nos planos propostos por Llull: um equilíbrio entre as “razões necessárias” e as armas. A cruzada luliana passou a possuir igualmente a necessidade do sermão e das armas: o argumento verdadeiro e o metal (CARRERAS I ARTAU, 1939: 265). O combate armado representava agora a luta pela paz universal e pela união de todos os povos do mundo sob uma única crença, um único Deus e um único papa.

Para ser admitido na ordem de cavalaria, o escudeiro se submetia a um longo ritual que misturava práticas cristãs e crenças populares. Aquele que desejasse ser um cavaleiro deveria, antes de tudo, ter um mestre cavaleiro para aprender tudo aquilo que fosse referente à tão nobre ordem. “(...) quem deseja ser cavaleiro convém que tenha mestre que seja cavaleiro, porque é coisa inconveniente que escudeiro aprenda a Ordem de Cavalaria de outro homem.” (RAMON LLULL, 2000: 19). Aqui o cavaleiro atuava como mestre dos que ansiavam ser armados. O beato aponta que, assim como não seria conveniente que um escudeiro fosse ensinado por um sapateiro ou carpinteiro a ser destro nos feitos de armas, também “(...) seria coisa inconveniente se carpinteiro ensinasse ao homem que desejasse ser sapateiro”. (RAMON LLULL, 2000: 19). Caso um cavaleiro malvado armasse um escudeiro, este poderia ser menos ajudado por Deus (RAMON LLULL, 2000: 73).

Llull considerava uma grande injúria que não houvesse escolas para ensinar, através das letras, a doutrina da ordem de cavalaria, visto que esta era muito alta (virtuosa, nobre) e honrada (RAMON LLULL, 2000: 21). O beato questionava: se os juristas, os médicos e os clérigos aprendiam seus ofícios pelos livros, por que não os cavaleiros? Suplicou ainda ao rei que fosse revista essa falha contra a ordem cavaleiresca. Assim, o tratado luliano surgiu para completar essa lacuna na educação medieval, pois atua como a “ciência escrita” em livros que Llull tanto reclamava (SOLER I LLOPART, 1989: 21-22).

O cavaleiro que não cumprisse o ofício para o qual fora destinado era vil e mesquinho, além de contrário à vontade de Deus, que o havia elegido para vencer e submeter os inimigos da fé cristã, que dia e noite lutavam contra a Santa Igreja. Então, a primeira função do cavaleiro era manter, defender, multiplicar e honrar a santa fé católica. Os cavaleiros que mantinham e defendiam o ofício de Deus e da fé eram merecedores da honra divina (RAMON LLULL, 2000: 23).

A segunda questão proposta nesse trabalho é referente aos valores e habilidades que um guerreiro deveria possuir para ser considerado um bom cavaleiro. Antes de tudo, o cavaleiro deveria ser amigo das virtudes e inimigo dos vícios. Sempre que seu coração fosse assolado por “coisas vis e tortas”, ele deveria se voltar para Deus e n’Ele buscar ajuda e socorro. Em Llull, a virtude era uma disposição habitual para a prática do bem (COLOM I MATEU, 1982-1985: 362), que o cavaleiro deveria levar a todos os lugares que estivesse. O virtuoso cavaleiro proposto por Ramon Llull deveria ser probo, vigoroso, além de possuir uma moral acima de todas as suspeitas. Essa fama do cavaleiro puro e cheio de virtudes era necessária, pois a sociedade ainda estava descrente de que a cavalaria não era mais a responsável pelas pilhagens e crimes hediondos contra tudo e todos.

O primeiro dom que o cavaleiro deveria possuir era a honra. Na cavalaria, esta indicava as ações virtuosas e com ela o cavaleiro honraria a Deus e à sua ordem. Seguindo retamente as finalidades de seu ofício, ele rendia graças a Deus. A honra não significava apenas virtudes, mas também a capacidade do cavaleiro desempenhar bem suas funções: usar bem das armas e das suas faculdades (lealdade, fidelidade, etc.) (RUBIÓ, 2001: 81-86). O direito de comandar era concedido ao cavaleiro pela alta honra que ele possuía (DUBY, 1992: 27). A “nobreza de coragem” que o cavaleiro deveria possuir não era senão a presença de valores éticos e morais, que se refletiriam em suas ações valorosas (valentia, firmeza, disposição). Era uma força espiritual, um bálsamo que inundava o coração do corajoso homem de armas (SOLER I LLOPART, 1989: 101).

No seio da sociedade, o bom cavaleiro deveria desempenhar diversas funções. Clarear essas funções nos ajudará a responder a terceira e última questão: que espaço ele ocupava na sociedade da época? É certo que o cavaleiro ocupava um lugar importante na violenta sociedade medieval. A ordem cavaleiresca estava encarregada da proteção geral da sociedade, de zelar pelo bem-estar do povo de Deus e ainda manter a ordem neste mundo terrestre. Encaravam uma vida cheia de riscos e de deveres por vezes desagradáveis (DUBY, 1989: 16-19). Essas funções foram divididas no texto luliano em dois grupos: as funções relacionadas à alma e as funções relativas ao corpo.

As primeiras remetiam às virtudes que os cavaleiros deveriam conhecer e praticar, pois elas eram “raiz e princípio de todos os bons costumes”. Eram sete, divididas em teologais e cardeais. As teologais eram três: fé, esperança e caridade; as cardeais quatro: justiça, prudência, fortaleza e temperança. Sem elas, o cavaleiro não conseguiria obter bons costumes e bons ensinamentos, exigências essenciais para fazer parte da ordem de cavalaria. Cada uma das virtudes doava ao cavaleiro uma espécie de capacidade específica:

Virtude
Capacidade
São corajosos e firmes
Esperança
Crêem na ajuda divina
Caridade
Sustentam o peso da cavalaria
Justiça
São semeadores da paz
Prudência
Distinguem o bem do mal
Fortaleza
São fortes e vitoriosos
Temperança
São moderados e comedidos

Era através das virtudes que o cavaleiro colocava em prática as funções relativas ao corpo. Se ele portava tais virtudes, certamente era digno de atos nobres e retos. Além dessas virtudes, outras são apresentadas por Llull: lealdade, largueza e gentileza. Com a lealdade, ele demonstraria obediência e respeito aos seus senhores (celestial e terrenal), com a largueza seria generoso e praticaria o “ofício de dar” (RAMON LLULL, 2000: 45), porém, sendo prudente, para assim não dilapidar seu patrimônio. Esse ofício significava a generosidade, a liberalidade e a caridade pelos despossuídos (COSTA). Gastar era uma forma de afirmação de poder sobre as populações (DUBY, 1992: 24). Sendo gentil portar-se-ia com bons modos e de maneira cortês entre as pessoas.

Através de seu corpo, o cavaleiro desempenhava suas funções sociais e políticas. Era sua responsabilidade manter, ou seja, defender e respeitar as viúvas, os órfãos e os homens despossuídos, socorrendo aqueles que necessitassem, protegendo os caminhos e os lavradores (DUBY, 1992: 24). Essas eram funções coercitivas e de natureza defensiva. Na cultura medieval, gestos manuais como tomar, reter e soltar, eram considerados ações políticas. Por exemplo: “tomar” era assumir as responsabilidades de proteção e sustento de alguém. As relações de poder eram paternais, pois um dos traços característicos do poder na Idade Média era a sua natureza doméstica. Nesse período, os poderes eram difíceis de discernir e delimitar (DUBY, 1992: 12-13).

Os cavaleiros deveriam manter em harmonia todos os ofícios existentes, cada qual em seus respectivos lugares e funções: ferreiros, sapateiros, mercadores, etc., e para conservar esse corpo ordenado, o cavaleiro deveria manter-se bem alojado, possuir castelos, vilas e manter fortes para a defesa de todos. Enfim: o ofício cavaleiresco existia para a proteção da sociedade a para a destruição dos maus homens, pois “(...) traidores, ladrões, salteadores devem estar sob o encalço dos cavaleiros, porque assim como machado é feito para destruir as árvores, assim cavaleiro tem seu ofício para destruir os maus homens” (RAMON LLULL, 2000: 41). O cavaleiro luliano também deveria ser rico para manter em bom estado seus equipamentos bélicos e também para que não desejasse roubar, trair ou ludibriar aqueles que possuíssem tais benefícios (RAMON LLULL, 2000: 61).

Encontramos em um poema escrito no século XII por Hartmann von Aue (c. 1170 - 1220) chamado “O Pobre Henrique” (Der arme Heinrich) a descrição esplêndida de um cavaleiro semelhante a esse idealizado por Ramon Llull:

Seu coração tinha abjurado
toda falsidade e torpeza
e também mantinha-se firme no juramento
com constância até seu fim.
Sem nenhuma reprovação
eram sua honra e sua vida.
A ele foi dada toda a plenitude
das honras deste mundo.
Ele bem as podia multiplicar
Com as mãos da pura virtude. (v.49-58) (...)
Ele era o refúgio dos necessitados,
um escudo para seus parentes,
uma balança equilibrada da benevolência:
A ele era desconhecido qualquer excesso ou escassez.
Ele carregava o cansativo fardo
da honra sobre as costas. (...)
ele era cortesmente educado e também sábio. (v. 63-73)
(HARTMANN VON AUE)

O protagonista do poema é Henrique, um nobre cavaleiro que, ao se afastar de Deus, se vê acometido pela lepra e assim perde todo seu prestígio e sua força. A salvação de Henrique veio pelas mãos de uma humilde camponesa, que aceitou derramar seu sangue em sacrifício pela salvação de Henrique. Porém, no último momento, quando a jovem está prestes a ser sacrificada, o cavaleiro se recusa a aceitar a morte da camponesa. Ele não se julga merecedor dessa graça. Por esse feito, Henrique é milagrosamente curado pelo amor de Deus, que o recompensa pela sua humildade. Como agradecimento, Henrique toma a jovem camponesa por esposa, concedendo-lhe um título da nobreza. Percebemos nesse extrato algumas características que Ramon Llull defende: honra e vida sem nenhuma reprovação, temperança, apoio àqueles que necessitassem e posse de um coração que renegava os vícios mundanos. Esse Henrique do trecho do poema poderia certamente ser confundido com o cavaleiro ideal luliano, pois, mesmo conhecendo quão grande era o fardo da cavalaria, permanecia firme desempenhando suas funções junto à sociedade.

O cavaleiro luliano, mesmo sendo suficientemente rico para manter a honra da cavalaria, não poderia possuir qualquer “defeito” que o impossibilitasse de fazer bom uso das armas, tornando-o indigno de ser armado (RAMON LLULL, 2000: 63) ou vícios que o levassem a executar atos mesquinhos (RAMON LLULL, 2000: 65). O maiorquino defendia que a cavalaria deveria prezar mais a qualidade que a quantidade, mas existiam aqueles que injuriavam a ordem, amando mais a “multidão de número” que os bons costumes: “(...) há alguns cavaleiros que preferem seja maior o número de cavaleiros a que existam bons cavaleiros.” (RAMON LLULL, 2000: 53).

O ofício da cavalaria era considerado por Llull um dos mais nobres. O beato afirmava que os mais honrados ofícios existentes eram os de clérigo e de cavaleiro, e por isso estes deveriam ser muito amigos (RAMON LLULL, 2000: 25). Porém, os cavaleiros deveriam ser obedientes aos clérigos (RAMON LLULL, 2000: 25). No quinto capítulo da obra, Llull esclarece que o ofício de cavalaria era o segundo mais nobre: “(...) o cavaleiro, que é, após o ofício de clérigo, o mais alto ofício que existe.” (RAMON LLULL, 2000. 79). Por possuir um ofício tão digno, o cavaleiro era responsável por manter a justiça, defender o rei e seu senhor natural. Cavalgar, justar, participar de torneios, esgrimir e caçar também eram ações relativas aos feitos de armas diante da sociedade (RAMON LLULL, 2000: 29).

Além dessas funções sociais desempenhadas pelos cavaleiros, também estes estavam ligados à administração e à política:

“(...) Deus quis que, para reger todas as gentes deste mundo, haja mister muitos oficiais que sejam cavaleiros; por isso rei ou príncipe que fizer procuradores, vegueres (espécie de corregedor), bailios, de homens que não sejam cavaleiros o faz contra o ofício da cavalaria, dado que seja mais conveniente que o cavaleiro, segundo a dignidade de seu ofício proteja o povo, do que outros homens. Pois, pela honra de seu ofício, lhe deve esse feito mais de honra que a outro homem que não seja tão honrado no ofício; e pela honra em que se encontra pela sua Ordem, tem nobreza de coração (...)” (RAMON LLULL, 2000: 27).

Pelo trecho acima, percebemos quão honrado era o ofício de cavaleiro e quantas responsabilidades ele possuía dentro do pensamento luliano. Justamente por isso que, no ato da admissão do novo cavaleiro, eram expostos a ele todos os perigos a que seria destinado a partir do momento que fosse armado. Manter a cavalaria era, como dissemos, um grande peso, um fardo. O cavaleiro deveria empenhar todas as suas forças pelo bom funcionamento da honrada ordem e quiçá morrer por ela, pois, “(...) o cavaleiro deve mais hesitar perante a censura das gentes do que perante a morte (...) e por isso todos esses perigos devem ser mostrados e denunciados ao escudeiro antes que seja armado cavaleiro” (RAMON LLULL, 2000: 61). O cavaleiro que morresse por sua ordem era o que melhor e mais profundamente possuía em si os preceitos e a nobreza dela (RAMON LLULL, 2000: 35).

Os cavaleiros eram muito necessários ao governo do príncipe, afirmou o “dito reverendo mestre Ramon” (RAMON LLULL). Eram os mais apropriados a ocupar cargos públicos, pois possuíam vantagens em relação aos outros homens (eram mais fortes, mais honrados, mais corajosos). Por isso, eram mais convenientes a exercer importantes funções no governo e a participar do conselho do príncipe (RAMON LLULL, 2002: 322). O soberano que não levasse em consideração esse fato ia contra a antiga e alta honra da cavalaria. O príncipe luliano possuía grande nobreza de coração e com ela era capaz de destruir os inimigos da cavalaria, encaminhando os cavaleiros para o bom caminho (RAMON LLULL, 2000: 33).

Quando Llull redigiu o Livro da Ordem de Cavalaria, a cavalaria já era uma ordem firmemente estruturada e associada à nobreza hereditária. O modelo de cavaleiro idealizado pelo maiorquino e as funções estabelecidas para esse cargo demonstram a grande importância desse grupo na construção da história medieval. O cavaleiro luliano desempenhava, de maneira sublime, honrada e corajosa o que os outros grupos da sociedade não poderiam fazer: eram destros no manejo das armas e os responsáveis pela segurança, não mais pelo terror, violência e pilhagens como nos tempos anteriores.

 

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Fontes

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