Revista Mirabilia 4

BAKOS, M (org.), Egiptomania – O Egito no Brasil, Paris Editorial, SP, 2004, 191p, ISBN 85-7244-261-8.

Por Renata Senna Garraffon
(UFPR)

Egiptomania – O Egito no Brasil, organizado por Margaret Bakos, professora na PUC do Rio Grande do Sul, é um livro inovador e muito contribui para a divulgação de estudos sobre o Egito Antigo, realizados no Brasil.

Partindo de um ponto de vista praticamente inexplorado em nosso país, Margaret Bakos e os demais autores propõem reflexões que estimulam o leitor a pensar sobre a influência egípcia em nosso cotidiano, a partir do fenômeno da egiptomania. Este fenômeno, definido como re-elaboração e reinterpretação de elementos da civilização egípcia pelas sociedades ao longo dos séculos, aparece na História brasileira em diferentes contextos.

Explorando suas diversas manifestações, os autores nos introduzem a redes intrincadas de relações entre o cotidiano brasileiro e Egito Antigo e apresentam estudos instigantes sobre os diferentes locais em que aparecem: logotipos das mais variadas empresas, marcos comemorativos de cidades, arquitetura de edifícios públicos ou privados, são alguns exemplos que ressaltam que o cientificismo da Egiptologia (disciplina destinada ao estudo do Egito Antigo) se mescla à emoção dos mistérios egípcios, produzindo novos significados e constituindo parte do imaginário coletivo. 

O livro está dividido em doze capítulos, além da introdução, escritos por pesquisadores que atuam diretamente no projeto “Egiptomania no Brasil” financiado pelo CNPq e coordenado pela professora Bakos e por estudiosos convidados, que trabalham em diferentes frentes de pesquisas sobre o Egito antigo.

O primeiro capítulo, escrito por Bakos e intitulado Como o Egito chegou ao Brasil, narra a chegada da Egiptologia no Brasil no início do século XIX. A formação da primeira coleção egípcia no Brasil estimulada por D.Pedro I e a paixão de D. Pedro II pelo Egito são explorados pela autora a partir de diferentes fontes, desde escritos de próprio punho do imperador até as sátiras dos jornais, e introduzem o leitor a uma problemática que perpassa os demais capítulos do livro: como ciência e imaginário constituem partes do fenômeno da Egiptomania.

Em seguida, Antônio Brancaglion Jr. escreve Coleções Egípcias no Brasil. Neste capítulo o autor comenta a controversa chegada das primeiras coleções de objetos egípcios no Brasil, além de fornecer ao leitor um mapeamento de diversas coleções e suas principais peças em diferentes instituições brasileiras.

Thiago N. de Araújo e Harry R. Bellomo são os autores do terceiro capítulo, Presença do antigo Egito nos cemitérios. Este e os capítulos seguintes se diferenciam dos dois primeiros: enquanto os textos de Bakos e Brancaglion tratam de temas mais históricos sobre o desenvolvimento da Egiptomania e os locais onde encontrar as coleções, o texto de Araújo e Bellomo começa a tratar especificamente as manifestações do fenômeno na sociedade brasileira. No caso deste capítulo, a ênfase está nas relações entre vida e morte e como símbolos egípcios são representados na arte cemiterial em diferentes cidades brasileiras.

Bakos volta a escrever o quarto capítulo, Arquitetura egípcia entre nós. A partir das obras arquitetônicas de Mestre Valentim, século XVIII, a autora comenta elementos egípcios na paisagem urbana brasileira. O quinto capítulo escrito por Márcia R. Brito e M. Bakos, intitulado Obeliscos brasileiros consiste em uma análise de parte do levantamento dos obeliscos brasileiros. Além de contextualizar seus usos e simbolismos na Antigüidade, as autoras apresentam dados surpreendentes sobre os motivos da construção dos monumentos modernos.

O sexto capítulo, Arte e decoração egípcia, também escrito por Bakos, consiste em comentários acerca de motivos egípcios em telas de pintores brasileiros, em charges políticas e na decoração de edifícios públicos. Já o sétimo capítulo, Festas, carnavais e Egito Antigo, de Bakos e Íris G. Germano, nos apresenta uma instigante reflexão sobre a importância simbólica do Egito antigo na formação da identidade negra no Brasil. A partir da análise de sambas, reggae e composições do grupo Olodum, as autoras destacam o papel exercido pelo Egito e Etiópia na perpetuação da memória africana.

O capítulo oito, A ordem Rosacruz e a Arquitetura Egípicia, de Moacir E. Santos, Thiago J. Moreira e Vivian N. V. Tedardi trata dos usos de símbolos egípcios em templos e edifícios da Ordem Rosacruz. O nono capítulo Marketing e Egito de Bakos, Márcia R. Brito, Marcelo Chechelski e Flávia M. Dexheimer apresenta uma estimulante reflexão sobre o significado de símbolos egípcios como obeliscos, pirâmides ou esfinges tanto na propaganda de produtos como no marketing de imóveis, construtoras, postos de gasolina, entre outros estabelecimentos comerciais. Os logotipos desenhados e a invocação destes símbolos estão associados, em geral, com solidez, confiança, estabilidade e proteção, tornando-se um importante veículo de resignificação entre passado e presente no Brasil contemporâneo.

Raquel S. Funari no capítulo O Egito na sala de aula trata da questão do ensino do Antigo Egito na sala de aula. Questionando métodos pedagógicos mais tradicionais em que o Egito é apresentado às crianças a partir de cansativas cronologias e dinastia, a autora propõe uma série de atividades lúdicas que estimulam a interdisciplinaridade, pesquisa e produção de conhecimento por parte dos alunos. A metodologia proposta, além de despertar o interesse dos jovens pelo estudo do Egito antigo e da História, ajuda a desenvolver um espírito crítico dos acontecimentos em seu cotidiano.

Os dois últimos capítulos tratam da influência do Egito na literatura. Elvo Clemente em O Egito na poesia brasileira – Pequena Antologia apresenta uma série de poemas de escritores brasileiros em que o Egito surge como temática central. Já Ciro Flamarion Cardoso encerra o livro com o capítulo Egiptomania na Literatura. O estudioso apresenta comentários de distintas obras produzidas por autores norte-americanos, europeus e brasileiros, no final do século XIX e durante o XX. Ao analisar as influências dos autores de romances históricos, Cardoso chama a atenção para o fato de que, embora muitos apresentem anacronismos, estes livros seguem despertando nos jovens o interesse pelo estudo científico do Egito antigo.

A partir deste breve resumo das temáticas dos capítulos é possível notar a diversidade de aspectos abordados de forma original no livro, o que o destina a um público heterogêneo, desde especialistas e educadores até os interessados nas influências dos mistérios egípcios no Brasil. Escrito de maneira didática e de fácil leitura, Egiptomania – O Egito no Brasil desperta a curiosidade do leitor e o estimula a observar, mais atentamente, seu entorno. Por fim, cabe ressaltar que o livro se constitui em um importante instrumento de reflexão sobre questões relacionadas ao conhecimento e preservação da arte e do patrimônio histórico brasileiro, à construção das identidades de diferentes camadas da população, ao ensino da História aos jovens e estímulo à Literatura.

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