RESENHA: Thomas Andrew DuBois. Nordic religions in the Viking age. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1999. Ilustrado, 271 p.
Nordic religions in the Viking age
Por Johnni Langer (Facipal – PR)
Na realidade a maioria das religiões não-reveladas da Antiguidade, justamente por seu caráter não-centralizado e não-dogmático (Cardoso, 1998, p. 213), acabaram criando complexas heterogeneidades de culto e crença. O paganismo Viking não poderia ser diferente. E DuBois logo aponta uma das principais influências na crença escandinava: o contato linguístico-cultural com o povo Sámi (Lapões) desde o século X a.C. Demonstrando que nenhuma cultura pode ser totalmente isolada e auto suficiente, mesmo no campo da religião – desfazendo assim o velho estereótipo dos Vikings como pagões isolados do mundo inteiro, com um sistema de crenças formado independentemente. O encontro de uma estátua de Buda em uma sepultura nórdica do séc. IX em Helgö (Suécia), é um exemplo precioso citado no livro. A religião para Thomas DuBois é muito mais do que um conjunto de deidades ou rituais, mas uma visão do universo expressa pela unidade coletiva. Para ele até mesmo o cristianismo precisa ser repensado, pois não se restringia aos conceitos fundados pelos teólogos, mas também às práticas que variavam regionalmente ao longo de sua História. Aqui percebemos influências teóricas do antropólogo Clifford Geertz e do mitólogo romeno Mircea Eliade, ambos referências muito importantes na constituição do livro.
Após apresentar aspectos mais conceituais e históricos nas duas primeiras partes, o autor aprofunda os sistemas de crença a partir do capítulo três, principalmente o papel social dos sacerdotes (goði) especializados no culto à determinados deuses, como Thor e Freyr. Na Islândia, os goði adquiriram status e poder político-social semelhante aos druidas na cultura celta. Serviam como chefes da comunidade, mantenedores da ordem, diplomacia, assuntos jurídicos e de disciplina. Numa sociedade agrária onde as deidades representavam ciclos e poderes da natureza, os sacerdotes ofereciam condições de relacionamento e representação da coletividade para com o mundo sobrenatural. Em tempos de crise, a comunicação com os deuses era um fator de sobrevivência primordial.
O quarto capítulo, "Visitors from the Beyond", apresenta detalhes sobre as noções da morte e suas implicações entre a sociedade Viking. Não muito diferente de outras partes da Europa pré-cristã, os enterros possuíam variações conforme a condição social do indivíduo: quanto maior seu status, mais elaborada era sua sepultura. A famosa cena do funeral Viking com a queima de embarcação, era apenas uma das possibilidades reservadas aos nobres: os funerais também poderiam consistir da queima do barco sem enterro, do simples enterro direto do corpo sobre o navio, e o mais comum, do enterro do morto sem maiores elaborações. Em alguns casos, como nas ilhas britânicas, algumas sepulturas pagãs (demarcadas por blocos de pedra – as runestones) coexistiram com sepulturas cristãs no mesmo local.
Sem dúvida, um dos momentos mais interessantes da obra é o capítulo 5, "Concepts of Health and Healing". Nada melhor para acabarmos com o estereótipo dos Vikings como gerreiros brutamontes e selvagens (Langer, 2002), do que entender os usos da religião escandinava como aplacadora de inúmeras enfermidades – uma dimensão bem humana, aliás, em qualquer cultura. Aqui não estamos distantes da tradição clássica e da Europa continental sobre o uso de ervas, unguentos e encantamentos para as mais diferentes finalidades, entre as quais sexualidade e reprodução. Segundo DuBois, grande parte dos medicamentos utilizados na Escandinavia medieval eram análogos aos conhecidos em anteriores textos anglo-saxões, estes por sua vez influenciados esporadicamente por tratados da antiguidade clássica.
O capítulo seguinte, "The intercultural Dimensions of the Seiðr Ritual", é o mais importante da obra, pelas suas implicações conceituais e documentais. O ritual seiðr foi utilizado principalmente em situações de crise e presidido muitas vezes por mulheres, buscando informações divinatórias. Os praticantes foram geralmente descritos como estrangeiros, pessoas com conexões lapônicas ou finlandesas e mais raramente, vínculos com as ilhas britânicas. Este ritual recorria a espiritos protetores – os supostos responsáveis pelos atos - atraídos por meio de música ou atos simbólicos. Outra curiosa utilização da magia seiðr é para o controle e leitura de mentes, a exemplo da finlandesa Drífa, que contratou um praticante para perturbar a mente de seu marido errante, o rei Vanlandi da Suécia. Após retornar à Finlândia, o "feiticeiro" contratado por Drífa enviou um incubus (mara) que acabou matando o rei. Outras práticas de encantamento, como o Varðlokkur (cantos mágicos), continuaram a ser utilizadas no mundo nórdico até mesmo por cristãos, como aconteceu nas colônias da Islândia.
As fontes documentais do século XII e XIII, algumas vezes associavam as mulheres dos rituais com praticantes de bruxaria/satanismo. Um problema complicado, pois não sabemos com exatidão como eram as crenças populares dos Vikings antes do período cristão – e portanto, antes da criação da imagem estereotipada da bruxa (Ginzburg, 2001, p. 76-82). Não sobreviveu nenhum relato escrito por um membro pagão das antigas comunidades. Assim, por exemplo, os deuses Vanir – devido à suas implicações com sexo e fertilidade – foram particularmente discriminados pelas concepções cristão das Sagas e outras fontes primárias. Segundo DuBois, alguns rituais escandinavos teriam origem claramente xamânica, provindas da região báltico-finlandesa, sendo assimiladas ao extenso e pré-existente repertório de práticas religiosas e mitológicas dos escandinavos. A herança de um patrimônio cultural de origem xamânica asiática, siberiana e de nômades das estepes para com o folclore europeu já foi demonstrado magistralmente por Ginzburg (2001). Como em diversas outras épocas e locais, o sincretismo criando novas formas de crença. Uma das grandes influências da cultura lapônica na religião nórdica foi com respeito à medicina mágica. Os xamãs utilizavam diversos métodos para controlar os maus espíritos, principalmente a noção de Väki (equivalente ao mana da antropologia), o poder inerente de vários objetos materiais como o ferro e o fogo. Por meio de fórmulas mágicas, a doença do paciente era transferida para objetos próximos ou distantes.
E quanto à questão da conversão dos Vikings ao cristianismo, temos que pensar a substituição do paganismo pela fé européia continental não em termos de uma ruptura brusca, mas de uma gradativa assimilação dentro das necessidades sociais dos escandinavos. Assim temos desde a substituição do símbolo do martelo de Thor pela cruz – algumas vezes usados simultaneamente - e a adaptação de deusas femininas ligadas ao parto por figuras cristãs como Santa Clara. A religião agindo diretamente no cotidiano e no universo mental dos camponeses e não apenas como uma prática imposta pela elite dominante ao sabor das mudanças políticas.
Como desfecho, o autor faz uma crítica aos pesquisadores que analisam os textos da literatura islandesa antiga, tentando encontrar somente indícios de paganismo e mitologia nórdica, esquecendo as diversas interpretações pessoais e visões cristãs dos autores dos manuscritos. Ao estabelecer os caminhos distintos que os escritores fizeram sobre a ordem cristã do século XIII, DuBois analisa três sagas em especial: Ólafs Tryggvasonar, Vigla-Glúms e Eiríks rauða. A principal conclusão é que os especialistas perdem informações preciosas ao elegerem para o estudo concepções unilaterais, omitindo a época de transição e esquecendo que a religião Viking sempre foi constituida por influências externas.
Apesar do livro de Boyer (1981) ainda continuar a ser o maior clássico sobre o tema, a presente obra de Thomas DuBois é muito bem vinda não somente para os medievalistas, mas a todos os que se interessam pelo estudo das religiões e mitologias da Europa em geral. A Idade Média ainda tem muito a nos revelar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOYER, Régis. Yggdrasil: La religion des anciens Scandinavies. Paris: Payot, 1981.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Os mistérios no paganismo clássico. Sete olhares sobre a Antiguidade. Brasília: UNB, 1998.
GINZBURG, Carlo. Conjeturas eurasiáticas. História Noturna: decifrando o Sabá. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
LANGER, Johnni. The origins of imaginary Vikings. Viking Heritage Magazine, University of Gotland (Sweden), vol. 4, dez. 2002.
[Voltar]