Resumo
O presente artigo visa apresentar
as Guerras Médicas como um fator histórico capaz de aglutinar
as fronteiras étnicas e geográficas entre atenienses e os grupos
étnicos que mantinham relações. Contudo, nossa atenção
neste artigo será a de observar as interações existentes
entre atenienses e etíopes no VI e V séculos a. C.
Abstract
This article presents the Persian
Wars as a historic factor able to agglutinate the ethnic and geographic frontier
between athenians and others ethnics groups if his kept relations. However,
our attention will be look upon in this abstract the interactions existing among
athenians and ethiopians in the VI and V B. C. Centuries.
Palavras Chaves – Guerras Médicas, contatos étnicos, atenienses e etíopes.
Key words – Persians Wars, ethnics contacts, athenians and ethiopians.
Este trabalho compõe o segundo capitulo de trabalho monográfico defendido no segundo semestre de 2002. A proposta deste capítulo é atribuir uma possível resposta para nossa hipótese de teoria, que consiste em apresentar as Guerras Médicas como fenômeno diminuidor das fronteiras geográficas e étnicas.
Para a sociedade grega, a guerra era um artifício cultural, social, étnico e econômico que recebia na antiguidade clássica os seguintes nomes: polemos, eris, neikos. Alguns filósofos da antiguidade afirmavam que a guerra era o princípio de todas as coisas, e que uns ela tornavam-se escravos e, a outros, homens livres (HIPÓLITO frag. IX 91). Segundo Maria Regina Candido, "Relatos sobre a guerra sempre fizeram parte da cultura grega como a narrativa de Homero sobre a guerra de Tróia, Ésquilo com a tragédia histórica os Persas onde encena a vitória de Atenas contra os persas e Heródoto que relata os acontecimentos políticos das guerras médicas" (CANDIDO, 2001:47). Os poetas trágicos relacionados acima são tidos por nós como os responsáveis pela manutenção da demarcação das fronteiras culturais, que definem o bárbaro como aquele que pertencia a uma outra forma de organização sócio-política, considerada como uma ignonímia para o grego.
Contudo, na apresentação do cenário entre os atenienses e os não-atenienses, utilizaremos como base documental a obra história de Heródoto, que realiza um testemunho histórico, geográfico, étnico e antropológico entre os grupos sociais envolvidos nas guerras Greco-Pérsicas, considerada por nós como uma grande guerra da antiguidade, visto que envolveu direta ou indiretamente, grande parte do mundo conhecido do período em análise.
Heródoto enfatiza o caráter de seus relatos no primeiro parágrafo de seu livro, ao informar:
"Os resultados das investigações (...) são apresentados aqui, para que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo, e para que feitos maravilhosos e admiráveis dos helenos e dos bárbaros não deixem de ser lembrados, inclusive as razões pelas quais eles se guerrearam (HERÓDOTO, I: 1)".
Desta maneira, enquadramos as Guerras Médicas num tipo de guerra com características que permitem conceituá-la como um elemento que constituíra uma visão radicalmente dualista do mundo, estabelecendo uma postura de oposição, em que um tende a constituir o "reflexo invertido do outro" (PESCHANSKI,1993: 56-57).
Nos sucessivos embates, os atenienses vão deparar-se com um elevado número de etnias que compunham o "exército dos imortais", que subjugados por Ciro e seus sucessores vão participar de forma ativa deste projeto expansionista persa.
Os etíopes (termos grego que significa: Homem de rosto tisnado, queimado) têm participação ativa neste conflito, pelo fato da Etiópia ter sido dominada pelo império persa que aplicou o costume pautado no direito do mais forte, no princípio de posse do vencedor sobre a pessoa e os bens do vencido, ou seja, os povos dominados além de pagar com tributos, impostos, completavam a derrota com o fornecimento de escravos, cedendo homens para o exército vencedor. Essas informações são enfatizadas por Heródoto ao transcrever as palavras de um guerreiro persa, ao afirmar que:
"(...) Depois de subjugarmos e mantermos como escravos os sacas, os indianos, os etíopes, os assírios e muitos outros grandes povos (...)". e na seguinte citação: "(...) Havia entre eles representantes dos seguintes povos: homens oriundos de Salamina e de Atenas, outros da Arcádia, outros de Citnos, outros da Fenícia, outros da Etiópia (HERÓDOTO VII, 9)".
Nesta perspectiva, os etíopes estão inseridos no processo de construção de mundo dualista que se apresentou durante e após as guerras Médicas. Entretanto, devemos informar que a Etiópia antiga ( que corresponde ao atual Sudão) e seus habitantes estão presentes na documentação textual grega, em períodos anteriores a Heródoto, como podemos vislumbrar nos seguintes documentos:
Através destas referências sobre a etnia etíope, podemos cotejar informações sobre suas tradições, costumes e formas de estabelecer formas de contatos com culturas distintas; como exemplo, podemos citar Homero ao mencionar que "Zeus e os demais deuses participam de um banquete com os etíopes que teve a duração de 12 dias" (Ilíada, I: 423-25). Esta citação torna-se interessante pelos indícios da presença de comensalidade dos etíopes com deuses gregos. De acordo com a tradição grega, esta comensalidade remete ao ritual da hospitalidade, uma forma de contato entre grupos de etnias e costumes diferentes, acompanhado das regras de trocas de presentes, estabelecimento de comunicação e o compromisso da não-agressão. Abre-se a comunicação dos atenienses com os etíopes pela via sagrada dos deuses que sacralizam este contato. Desta forma, se estabelece uma espécie de Xenia sagrada, um "contrato" de ajuda mútua, reciprocidade entre grupos estrangeiros.
Em síntese, o banquete da hospitalidade coloca sob o mesmo plano os hóspedes, na figura dos homens e dos deuses, em posição de Xenai. O contato torna-se sacralizado por intermédio de uma mesa que comporta as partes da vítima do sacrifício, ou seja, no altar as partes dos deuses e na mesa as partes comestíveis designadas aos homens.
Pode-se contemplar tal proposição na seguinte citação:
" (...) Câmbises deliberou (...) três expedições (...) a Etiópia ele mandou primeiro espiões, para ver se havia alguma verdade relativa a uma mesa do sol naquele território, e para espionar tudo mais, a pretexto de enviar ao seu rei. A mesa do sol consiste no seguinte: lá um prado nas vizinhanças da cidade dos etíopes macróbios, repleta de carnes cozidas de todos os quadrúpedes; as autoridades da cidade se incumbem de por a carne no local durante a noite, e durante o dia qualquer pessoa que deseje pode chegar até lá e comê-la. Segundo os habitantes da região essas carnes são produzidas pela própria terra diariamente. Essa é a história contada a respeito da mesa do sol" (HERÓDOTO, III, 17-18).
Citamos também Xenófanes de Cólofon: "os etíopes dizem que seus deuses são de narizes achatados e negros" (Fr. 16, Clemente Strom. VII, 22, 1). Esta afirmação mostra que os gregos, principalmente, os atenienses, haviam percebido que cada região tinha suas crenças, costumes e tradições; não havendo uma unicidade étnica de crenças e nem de culto. Em Ésquilo podemos observar: "há uma região remota onde vive um povo negro perto das águas do sol, nas terras percorridas pelo rio etíope" (ÉSQUILO, 1993:1055-1057). Em Hesíodo destacamos: "Aurora pariu Ménon de brônzeo elmo rei dos etíopes" (HESÍODO, Teogonia, 984-985).
No mundo bipolar representado pelos atenienses e os outros, inserimos os etíopes, designados como eschatoi andron, homens dos confins ou homens situados nas fronteiras da humanidade, termo confirmado na citação de Homero: "Posêidon, porém, partira para longe, em visita aos etíopes, que vivem nos confins da terra (...)" (HOMERO, I, 23-24). Segundo Heródoto:
"As regiões extremas, que circundam o resto do mundo e o fecham entre si, possuem só coisas que julgamos as mais belas e que são as mais raras "(HERÓDOTO, III - 116.)
Visto a bipolarização estabelecida pelas Guerras Médicas, investimos daqui para diante, no diálogo com as Ciências Sociais, através dos conceitos teóricos relativos à Etnicidade.
Esta abordagem auxilia-nos a elaborar as formas de contato entre os grupos étnicos em questão: atenienses e etíopes. O termo grupo étnico pode ser definido como um classificador que opera no interior do sistema interétnico e ao nível ideológico, como produto de representações coletivas polarizadas por grupos sociais em oposição latente ou manifesta. Esses grupos são étnicos na medida em que se definem ou se identificam valendo-se se simbologias culturais," raciais "ou religiosas. Nesta perspectiva, atenienses e etíopes relacionaram-se e constituíram suas identidades e reforçaram suas alteridades através das relações e oposições.
Os conceitos teóricos abordados neste trabalho são os sugeridos por Fredrik Barth que, apoiado em uma abordagem interacionista, acredita que as categorias étnicas constituem um processo social de exclusão e de incorporação pelos quais categorias discretas são mantidas, apesar das transformações na participação e na pertença no decorrer de histórias de vidas individuais. Dá-se importância primordial ao fato de que os grupos étnicos são categorias de atribuição e identificação realizadas pelos próprios atores e, assim, têm a característica de organizar a interação entre as pessoas.
Dentre as inúmeras apreciações estabelecidas por Barth, empregaremos alguns conceitos que visam auxiliar a compreensão da organização social ateniense e a relação com as aproximações que se intensificou com os etíopes no início do quinto século.
O primeiro ponto a ser analisado, de acordo com a proposta do autor, diz respeito ao caráter dinâmico das relações étnicas. Segundo Barth, a etnicidade revela-se nas ações e reações entre o grupo e os outros em uma organização social que não cessa de evoluir. É um conjunto de componentes sociais que são mutáveis, variam de acordo com o tempo e, nesse incessante processo de mudanças sociais, políticas e culturais que os grupos étnicos conseguem manter os limites que os distinguem como diferentes (Poutignat e Fenart, 1998: 188). Portanto, as identidades dos grupos, conforme Barth, modificam de acordo com os fatores internos e externos do contexto histórico que estão envolvidos, auxiliados, por exemplo: pelo comercio, pelas migrações, pelos conflitos, entre outros.
Levamos estas proposições para a primeira metade do V século e percebemos que as Guerras Médicas modificam a conjuntura social dos atenienses, fazendo suscitar uma intensa produção textual e imagética sobre o outro. É uma forma de acentuação de identidade, tendo como parâmetro os não atenienses, no caso os etíopes. Desta maneira, as instabilidades conjunturais, promovidas pelas guerras que auxiliaram na marcação da identidade ateniense, ao colocar os gregos diante de culturas, crenças e tradições distintas.
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As imagens registradas acima são indícios da demarcação das fronteiras étnicas estabelecidas entre atenienses e etíopes durante o período das Guerras Médicas.
É uma identidade indicada pela comparação, pela confrontação entre elementos distintos. Nas imagens pode-se identificar duas variedades de demarcação, expressas nas diferenças de gênero e étnicas. A mulher e o etíope são considerados como os outros, os diferentes para a sociedade dos atenienses. A mulher é a representação da alteridade em relação ao homem. Em contrapartida, o etíope representa a marcação de uma alteridade em relação à pólis dos atenienses, situado nos limites, nas fronteiras do desconhecido. Tal indício permite a aproximação com a mulher, ser desconhecido e à margem da sociedade dos homens de Atenas.
Outra apreensão interessante da sociedade dos atenienses está no fato da identidade étnica não ser imutável e intemporal. Tal afirmação nos remete ao fenômeno da guerra, que no início do V século, promoveu a definição do bárbaro, como sendo perigoso, inimigo, não definindo de qual etnia bastava considerar o não falar grego para ser configurado em um grupo a ser evitado.
O poeta Ésquilo, nas obras os Persas e Prometeu Acorrentado, define o outro de cultura diferente dos atenienses como um grupo situado nas fronteiras da cultura, nos confins das regiões civilizadas. Entretanto, no inicio do V século a C., o outro, o étnico e culturalmente diferente, vive ao lado dos atenienses, junto ao porto do Pireu, desenvolvendo atividades no emporion e comércio. Desta maneira, indicamos que a identidade étnica não é imutável e intemporal, evidenciando que os modelos étnicos são definidos pelos próprios atores sociais, não constituindo algo dado, estabelecido, mas sim, interações sociais constantes e incessantes.
Outra importante consideração de Barth consolida-se nas questões de oposição entre as identidades étnicas. Segundo o autor: "A etnicidade é um conceito de organização social que nos permite descrever as fronteiras e as relações dos grupos sociais em termos de contrastes altamente seletivo, que são utilizados de forma emblemática para organizar as identidades e as interações"(Poutignat e Fenart, 1998: 183)".
Este conceito aplicado às informações provenientes de Heródoto nos remete ao episódio ( Heródoto, III, 21), no qual, o autor narra um embate entre o rei etíope e o rei persa. Aplicando a metodologia do quadrado semiótico A (em anexo, após a bibliografia), percebemos que ambos apresentam a mesma organização social de governo, ou seja, a forma de governo da realeza. porém, as relações destes grupos sociais são demarcadas pelo contraste.
Câmbises, rei dos persas e sua comitiva foram considerados como espiões que cobiçavam os territórios dos etíopes, visando escravizar homens que nada haviam feito para ofendê-los. Logo, Heródoto enfatiza os contrastes de forma seletiva, em que, os etíopes tornam-se homens justos e superiores aos persas que são considerados injustos, por não respeitarem a lei da hospitalidade. Esta transgressão dificulta o estabelecimento da comunicação e aliança entre os persas e os etíopes, levando estes a não valorizar a oferta de presentes e o pedido de amizade – philia.
Nesta perspectiva, a identidade étnica pode ser representada com base no contraste, na oposição, entre nós e os outros. Quando uma pessoa ou um grupo se afirma a partir de tais parâmetros, o fazem como meio de diferenciação em relação a alguma pessoa ou grupo com que se defrontam. É uma identidade que se molda pela diferenciação, entre membros e não-membros.
Nas aproximações entre atenienses e etíopes, acreditamos que os helenos vão marcar sua identidade por meio de uma identidade contrastiva, uma relação binária de oposição, representada por atenienses e não-atenienses. No quadro dos embates de Salamina e Maratona, os atenienses utilizam-se dos grupos étnicos que compunham o exercito persa para marcar seus parâmetros e fronteiras étnicas. Desta maneira, podemos considerar que os grupos não formavam entidades isoladas, mas sim, interagiam em um mosaico de grupos que manifestavam similaridades e diferenças. Nestas circunstâncias, a identidade étnica dos indivíduos era tão problemática e dinâmica quanto nas sociedades modernas.
Verificamos a demarcação de uma diferença que Barth denota entre cultura e etnia. Para ele: "é importante reconhecer que embora categorias étnicas levem em conta diferenças culturais, podemos presumir, que não há uma simples relação biunívoca entre unidades étnicas e semelhanças e diferenças ‘objetivas’, mas só aquelas que os próprios atores consideram significativas" (BARTH, 1969: 14).
Barth com esta colocação, afirma que para a análise dos grupos étnicos a cultura em que este se insere é fundamental. Porém, não será o termo definitivo para as demarcações dos parâmetros étnicos. A etnicidade não é vazia de conteúdos culturais, pelo contrário, os grupos apóiam-se nelas. Os atores étnicos vão servir-se de processos seletivos de traços culturais dos quais os membros se apoderam para transformá-los em critérios de consignação ou de identificação com um grupo étnico.
Ao propor que se considere a cultura comum como implicação do que uma definição da etnicidade, Barth recusa-se a considerar que as diferenças culturais possam ter uma pertinência em si mesma, fora do campo das relações onde se encontram organizadas em categorias étnicas contrastivas. O que importa para a análise dos fenômenos de etnicidade não é o conteúdo cultural específico deste ou daquele grupo, mas o processo de codificação das diferenças culturais que tornam as categorias étnicas organizacionalmente pertinentes. A etnicidade implica sempre um processo de seleção de traços culturais dos quais os atores se apoderam para transformá-los em critérios de consignação ou de identificação com um grupo étnico. Porém, não há como prever quais símbolos serão adotados pelos grupos para a incessante dicotomização dialética estabelecida entre Nós e Eles.
Podemos aplicar tal conceito ao entender que os atenienses formavam um grupo étnico. Pois, "na medida em que os agentes se valem da identidade étnica para classificar a si próprio e os outros para propósitos de interação, eles formam grupos étnicos em seu sentido de organização" (BARTH, 1969:14.)
Os atenienses apoiaram-se em alguns traços ou valores que possam conferir-lhes algum poder de demarcação frente à alteridade alheia. Deste modo, podemos entender o fato de atenienses e espartanos, por exemplo, terem um mesmo espaço cultural e apresentarem valores étnicos tão distintos. Assim sendo, inserimos os atenienses como grupo étnico que não utiliza apenas as diferenças culturais empiricamente observadas para demarcar suas fronteiras, mas sim, apóia-se nestes símbolos para conotar as diferenças entre atenienses e etíopes.
Percebemos que os demarcadores étnicos são maleáveis, pois acreditamos que o ateniense ao aproximar-se de uma etnia distinta utiliza parâmetros diversos para demarcar sua alteridade. Isto significa que, para um grupo o que prevalecerá na diferenciação será a religião, para outro a política, para um terceiro os hábitos alimentares. A diferença é gradativa e diferente para cada etnia.
Podemos considerar que no jogo étnico o que era considerado para o ateniense como demarcação das suas fronteiras étnicas eram: o fato de falarem o grego; cultuar deuses antropomórficos; utilizar-se na maioria das ocasiões do debate, da reflexão e do voto. Estes atributos qualificam o cidadão que defende o seu solo sagrado, lutando como hoplita. Estes e muitos outros pontos serviam para marcar o ateniense como um cidadão diante do não-cidadão, introjetando cada vez mais em seu subconsciente individual e coletivo as especificidades que o diferencia dos outros.
Outra questão a ser considerada diz respeito a formação, manutenção e permanência das fronteiras (POUTIGNAT E FENART, 1998:195); assunto que Barth domina como poucos, servindo até de título para sua obra mais significativa: "grupos étnicos e suas fronteiras". Este pensamento foi um marco nos estudos dos grupos étnicos e representa um elemento central da compreensão dos fenômenos de etnicidade. A idéia de fronteira étnica vem para anunciar que a pertença étnica não pode ser determinada senão em relação a uma linha de demarcação entre os atenienses e os etíopes. Para que a noção de grupo étnico faça sentido é necessário que os integrantes dos grupos tenham a consciência de que são eles que marcam o sistema social ao qual acham pertencer e para além dos quais eles identificam outros autores implicados em um outro sistema. Esta afirmativa coloca que os marcadores étnicos são conscientemente utilizados pelos grupos, servindo de base para a diferenciação do grupo em um sistema interétnico.
Encontramos na sociedade ateniense do V século indícios de uma maior visualização das fronteiras étnicas que encontrou em outros grupos os seus limites étnicos, a acentuação de seus valores, fortalecendo de forma significativa a identidade de uma comunidade políade, ratificado no seu contexto histórico. Assim sendo, os atenienses souberam articular as demarcações de suas fronteiras.
A dicotomização entre os atenienses e os outros, não pode ser concebida senão na fronteiras do "Nós", em contato ou confrontação, ou por contraste com "Eles". Portanto, percebe-se que os atenienses apresentaram critérios sólidos e conscientes para a demarcação e limitação entre eles e os outros.
A manutenção das fronteiras (POUTIGNAT E FENART, 1998:196) é efetivada pelos próprios integrantes da comunidade políade, estabelecendo uma condição necessária para a etnicidade. Os próprios atores que conscientemente produzem e reproduzem a manutenção das fronteiras que se baseia no reconhecimento e na validação das distinções sociais, é algo manipulável que define a pertença e a exclusão entre o binômio Nós/Eles. Barth acrescenta que a manutenção ativa da demarcação de fronteiras, acentua-se diante de situações em que a violência e a insegurança dominam as relações interétnicas. Desta forma, as guerras médicas exerceram uma forte pressão interna nos valores significativos para os parâmetros de diferenciação, acentuando e dando espaço para novos valores que demarcam de forma disforizada o outro, considerado como diferente.
Neste período o outro passa a ser identificado como bárbaro. Este termo nos remete ao poder de nomeação que os grupos étnicos possuem. Esta possibilidade de classificar o outro entra em cena na medida em que as identidades étnicas são compostas não apenas de uma auto-atribuição, ela depende também, das atribuições externas que os atenienses realizarão dos bárbaros, ou seja, a identidade étnica não se define apenas de maneira endógena, ela é sempre um produto de atos significativos de outros grupos, em um sistema complexo de interações sociais.
A dialética exógena/endógena insere-se de maneira satisfatória em nosso objeto, pois o termo etíope foi uma atribuição que os atenienses deram para nomear a etnia que vivia ao sul do Egito, os "cara queimadas". Isto evidencia a relação entre atenienses e etíopes, na qual um grupo chega a ser classificado pelo outro.Todavia este discurso apresenta apenas uma única via, obstante que não temos documentos que apresentem a nomeação que etíopes atribuíam aos atenienses e até mesmo como se auto denominavam.
A exo-definição pode ser exemplificada na seguinte citação de Heródoto:
"Na direção em que o sul se inclina para o sol poente, a Etiópia é a mais remota das regiões habitadas; existe muito ouro e há enormes elefantes, e todas as árvores silvestres, e ébano, e homens de elevada estatura e muito belos e de uma longevidade excepcional (HERÓDOTO, III, 114)

PRANCHA - 3
Coleção: British Museum. Forma: Arýbalo. Resumo: cabeça
de um etíope.
Data: século Vº a.C. Região: Ática
Fonte: BOURGEOIS,Alan.
"La Grece Antique Devant la Negritude". 5 edição Paris: Presence
Africaine. 1971, p. 19.
Essas qualificações apresentadas pelos atenienses para representar os etíopes e a Etiópia podem ser consideradas como uma denominação que vem do exterior. Os etíopes não poderiam ignorar a forma como eram conhecidos pelos outros grupos. Os atenienses os classificaram e, provavelmente, ficaram conhecidos por tal denominação em outras partes do mundo conhecido, visto que, Atenas no V século forma uma região em destaque por suas atividades políticas, econômicas e intelectuais de seu tempo, difundindo, certamente, a imagem dos etíopes frente a outros grupos étnicos.
A imagem contida no arybalo representa a fisionomia dos etíopes sob a ótica ateniense, evidenciando um traço característico, o rosto tisnado que na posição em que se encontra deixa transparecer que o artesão tinha a intenção de figurar e descrever os traços marcantes dos etíopes.
Acreditamos que os conceitos propostos por Fredrik Barth auxilia-nos a compreender como foram estabelecidas as aproximações étnicas entre atenienses e etíopes, ressaltando que teorias propostas para análise das sociedades contemporâneas podem servir adequadamente para avaliarmos as sociedades antigas, pois os contatos étnicos nas sociedades antigas são tão complexos e dinâmicos quanto nas sociedades modernas, constituindo uma teia de interação que, muitas vezes, fica obscuro em algumas análises históricas.
Em suma, o V século é um cenário propício para a acentuação da construção da identidade ateniense, através da qual capta e define o que é ser ateniense em contraposição ao que é ser bárbaro. É uma identidade étnica assinalada pela comparação, pela dialética, em que, os atenienses marcaram suas fronteiras étnicas; é o estabelecimento cada vez mais acentuado entre ser ateniense e os outros. Deste modo, podemos afirmar que as guerras proporcionaram uma aproximação entre as fronteiras, sejam elas geográficas, étnicas ou culturais entre atenienses e etíopes.
BIBLIOGRAFIA:
Documentação textual
ESQUILO. Prometeu acorrentado. Trad. Mario da Gama Cury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1993.
HERÓDOTO, História. trad. de Mário da gama Kury. Brasília: Ed. Universidade de Brasília. 1998.
HESÍODO. Teogonia. Trad. João Torrano. 3º ed. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1995.
HOMÉRE. Iliade, Paris: société d’édition, 1965.
HOMÉRE. A Odisséia, Paris: société d’édition, 1965.
Bibliografia básica
BARTH, F.(org). Grupos étnicos e suas fronteias: a organização da cultura das diferenças culturais. Boston: Little Brow & Co. 1969.
BOURGEOIS, Alan. La Grece Antique Devant La Negritude. 5º ed. , Paris: Presence Africaine, 1971.
CANDIDO, Maria Regina. Katádesmos: a magia entre os atenienses do V ao III século a C. Rio de Janeiro, 2001 (tese de doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro. (circulação restrita).
FRANK M. Snowden, Jr. Before color prejudice. London: Harvard University Press Cambridge, 1983.
FRANK M. Snowden, Jr. Blacks in antiquity. Harvard University Press Cambridge, Massachusetts, 1970.
HARTOG , François, O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro, Belo horizonte: ed. UFMG, 1999.
JAEGER, Werner. Paidéia: A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
JOLY, M. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.
JONES, Peter V (organizador). O mundo de Atenas. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
MOSSÉ, Claude. Atenas (A História de uma Democracia) Brasília: UNB, 3º ed. 1997.
OLIVEIRA, R. CARDOSO. Identidade, etnia e estrutura social. São Paulo: Pioneira, 1976.
PESCHANSKI, C. "Os bárbaros em confronto com o tempo" In Gregos, Bárbaros, Estrangeiros (cidade e seus outros) Rio de Janeiro, Ed. 34, 1993.
POUTIGNAT e FENART. Teorias da Etnicidade, São Paulo: Unesp, 1998.
SHINNIE, P. L., Meróe – uma civilização do Sudão. Lisboa: Editorial Verbo, 1967.
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Quadrado Semiótico A (Heródoto. III – 21) |
TEXTO: "Chegando ao território desses homens os ictiófagos lhes ofereceram os presentes e transmitiram a seguinte mensagem do seu rei: ‘Câmbises rei dos persas, desejando ser teu amigo e anfitrião, manda-nos com a missão de nos dirigirmos a ti, e te oferecer como presente esses objetos com os quais ele mesmo se deleita’. Mas, percebendo que eles vinham como espiões, o rei etíope lhes disse em resposta: ‘não é por achar muito importante ser meu anfitrião que o rei dos persas vos manda trazendo-me presentes, nem falais a verdade, vieste espionar meus domínios e nem vosso rei é um homem justo; se fosse justo ele não teria cobiçado qualquer território além do seu, nem tentaria escravizar homens que não o ofenderam de forma alguma’. Agora, entregai-lhe este arco e dizei-lhe as seguintes palavras: ‘o rei dos etíopes aconselha o rei dos persas a, no dia em que vergarem um arco desse tamanho tão facilmente quanto eu, Atacar os etíopes macróbios com forças superiores às deles; até esse dia, porém, dêem os persas graças aos deuses por não terem incutido no espírito dos filhos dos etíopes o desejo de acrescentarem outros territórios aos seus".
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Persas amigos |
Etíopes amigos |
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S1 |
S2 |
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"os ictiófagos lhes ofereceram os presentes"; "Câmbises rei dos persas, desejando ser teu amigo e anfitrião" ; "oferece como presentes esses objetos com os quais ele mesmo se deleita".
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"Agora, entregai-lhe este arco e dizei-lhe as seguintes palavras: ‘o rei dos etíopes aconselha o rei dos persas a, no dia em que vergarem um arco desse tamanho tão facilmente quanto eu (...)". |
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Etíopes inimigos |
Persas inimigos |
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- S2 |
- S1 |
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"dêem os persas graças aos deuses por não terem incutido no espírito dos filhos dos etíopes o desejo de acrescentarem outros territórios aos seus". |
"vinham como espiões"; "Nem falais a verdade, vieste espionar meus domínios" ; "Nem vosso rei é um homem justo; se fosse justo ele não teria cobiçado"; "Nem tentaria escravizar homens que não o ofenderam". "Atacar os etíopes macróbios com forças superiores ás deles" |
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