Revista Mirabilia 2

Memória e Rapsódia: o canto divino na Arcádia
Memory and Rhapsody: The Divine Song in Archadia

Gedächtnis und Rhapsodie: Der götlliche Gesang in Arkadien
Ciléa Dourado
(Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio)

Resumo
A atividade poética da Idade de Ouro grega, mais conhecida como Arcádia, se desenvolveu dentro de uma cultura pré-letrada e condicionada por um simbolismo de cunho mitológico. A poesia Árcade nos remete à noção do fantástico, do sublime e do divino em sua forma mais pura. O Poeta arcaico se revestia do poder que lhe era conferido diretamente pelos deuses, e tal poder era inquestionável e intransferível. A linhagem e sucessão de um Rapsodo não raro se verificava através da Arete, a escolha do mais nobre.

Abstract
The poetic activity of the Greek Golden Age, better known as Archadia, grew inside a pre-literate culture which was characterized, above all, by a mythological symbolism. The Archadian poetry points to the notion of the fantastic, of the sublime and of the divine in its purest form. The archaic Poet was endowed with the power directly by the gods, and such a power was non-negotiable and non-transferable. The lineage and succession of a rhapsodist was often brought out by Arete, the choice of the nobler.

Palavras-chave
Poesia, Verdade, Tradição, Poder

Key-words
Poetry, Truth, Tradition, Power


Introdução

Fílon de Alexandria nos diz:

“[...] Canta-se em um velho relato, imaginado pelos sábios, e transmitido de memória, como tantos outros, de geração em geração [...] É assim que se segue: Quando o Criador acabou o mundo inteiro, perguntou a um dos profetas se desejaria que algo não existisse dentre todas as coisas que haviam nascido sobre a terra. Respondeu-lhe o outro que todas eram absolutamente perfeitas e completas, que faltava somente uma, a palavra laudatória [...] O Pai de Tudo escutou esse discurso, e, ao aprová-lo, criou imediatamente a linhagem das cantoras plenas de harmonias, nascidas de uma das potências que o rodeavam, a Virgem Memória, que o vulgar, alterando seu nome, chama Mmnemosýne.” (BOYANCÉ, 1946: 16)

A palavra do Poeta arcaico tal como se desenvolve na atividade poética, é solidária a duas noções complementares: A Musa e a Memória. Essas duas potências religiosas definem a configuração geral da Alétheia poética e sua significação real e profunda. Qual é a significação da Musa? Qual a função da Memória? Numerosos testemunhos da época clássica permitem-nos pensar que Mousa significa a palavra cantada, a palavra ritmada; entre as Musas e a “palavra cantada”, existe uma estreita solidariedade, que se afirma ainda mais explicitamente nos nomes que possuem as filhas de Memória, pois toda uma teologia da palavra cantada se desenvolve a partir deles, como por exemplo Clio, que conota a glória das grandes façanhas que o Poeta transmite às gerações futuras; Thalia à festa, a condição social da criação poética; Melpômene e Terpsícore despertam as imagens de música e dança; Polimnía e Kalíope, a voz potente que dá vida aos poemas.

Muito antes de Hesíodo, as Musas eram veneradas em conjunto de três, em um santuário muito antigo, situado no Hélicon, e eram denominadas Mélete, Mnéme e Aoide, cada uma designando um aspecto essencial da função poética (VAN GRONINGEN, 1948: 287). Mélete designa a disciplina indispensável ao aprendizado do ofício de Rhapsodo, ou Aedo. É a atenção, a concentração, o exercício mental.

Mnéme é a função psicológica que permite a recitação e a improvisação. Aoide é o produto, o canto épico. E não se trata apenas de performances rapsódicas, ou seja, de um didatismo, mas as Musas recobrem muito bem os três aspectos da função poética: função de organização, função conservadora e função criadora. Outras nomenclaturas são ainda atestadas. Cícero refere-se a uma em que as Musas aparecem em número de quatro: Arché, Mélete, Aoide e Thelxinoé (CÍCERO, 1958: 1100-1101). Duas delas são aspectos inéditos: Arché é o princípio original, pois a palavra do Poeta busca descobrir a realidade primordial. Thelxinoé é a sedução, o fascínio que a palavra cantada exerce sobre o outro.

Mas a palavra cantada é inseparável da memória, e na tradição hesiódica as Musas são filhas de Mnemosýne (VERNANT, 1959: 7), são elas que fazem o Poeta “lembrar-se”. O estatuto religioso da memória, seu culto em meio aos Aedos e sua importância no pensamento poético somente podem ser compreendidos ao considerar o fato de que, do séc. XII ao séc. IX, a civilização grega fundava-se sobre Tradições orais. Uma civilização oral exige um desenvolvimento espetacular da memória e de técnicas muito precisas. A poesia oral da qual resultam como exemplos a Ilíada e a Odisséia, não pode ser compreendida sem se postular uma verdadeira mnemotécnica. Sob a inspiração poética suspeita-se um lento adestramento da memória.

Mas a memória do Poeta não é uma função psicológica orientada como a nossa, é uma memória divinizada que não visa em absoluto reconstruir o passado segundo uma perspectiva temporal. Em primeiro lugar a memória sacralizada é privilégio de uma confraria organizada, diferenciando radicalmente do mero poder de recordar que possuem todos os indivíduos. A memória, é saber mântico (TEOGONIA: 1966) que se define pela fórmula: “o que é, o que será, o que foi.” O Poeta tem acesso direto mediante uma visão pessoal, aos acontecimentos que evoca; sua memória permite-lhe ‘decifrar o invisível’, entrar em contato com o outro mundo. A memória não é somente o suporte material da palavra cantada, a função psicológica que sustenta a técnica formular; é também, e sobretudo, a potência religiosa que confere ao verbo poético seu estatuto de palavra mágico-religiosa (CORNFORD, 1989: 78).

A palavra cantada, pronunciada por um Poeta dotado de um dom de vidência, é uma palavra eficaz; ela institui por virtude própria, um mundo simbólico-religioso que é o próprio real. O lugar e o valor da Alétheia se inserem nestes registros. É no poema de Hesíodo que se atesta a mais antiga representação de uma Alétheia poética e religiosa. As Musas reivindicam com orgulho, o privilégio de “dizer a verdade”. De fato as musas são aquelas que dizem ‘o que é, o que será, o que foi’; são as palavras da Memória. Pela potência da palavra o Poeta faz de um simples mortal “o igual de um Rei”, confere-lhe o Ser, a Realidade, pois detém o poder de conceder ou negar a ‘Memória’.

Isto não significa a privação da faculdade de reconstruir seu passado temporal, mas significa não possuir o bem Memorial, privilégio quase sempre concedido aos vivos. Ao mestre do Louvor cabe decidir para que um homem não seja oculto sob o véu da obscuridade, e o façam fracassar o Silêncio e o Esquecimento, e que seu nome brilhe na luz resplandecente. O campo da palavra poética se equilibra pela tensão de potências binárias:

                                     +                         -
                                Louvor               Censura

                                Palavra               Silêncio

                                Luz                Obscuridade

                                Memória          Esquecimento

                                   Alétheia              Léthe

Quando um poeta pronuncia uma palavra de elogio, ele o faz por Alétheia, e em seu nome, ele é um “Mestre da Verdade” (DETIENNE, 1988: 39). Sua “verdade” é sempre assertórica: ninguém a contesta, ninguém a contradiz. Diferente de nossa concepção tradicional, Alétheia não é a concordância da preposição e de seu objeto, nem a concordância de um juízo com outros juízos; ela não se opõe à ‘mentira’ e não há o ‘verdadeiro’ frente ao ‘falso’. A única oposição significativa à de Alétheia é o de Léthe. É surpreendente o contraste que se estabelece entre o caráter todo-poderoso do poeta na sociedade grega desde a época micênica até o fim da época arcaica, e sua posição na democracia clássica.

Nesta última, no máximo, o Poeta é apenas um parasita, encarregado de devolver à elite que o sustenta uma imagem embelecida de seu passado. Na época arcaica, mesmo após o declínio de sua função litúrgica, ele continua a representar para a aristocracia um personagem todo-poderoso: é ele sozinho quem concede ou nega o poder memorial que dá a vida. Em sua palavra os homens se reconhecem. O campo do saber mântico concede à Alétheia um lugar predominante. As visões dos sonhos também pertencem à Alétheia, Cassandra é uma alèthomantis (DETIENNE, 1988: 37).

Dentre os oráculos nos quais se praticavam a adivinhação pelo sono, nenhum é mais célebre que o de Trofônios em Lebadia. À entrada do oráculo estavam as duas fontes: Léthe e Mnemosýne, as duas potências religiosas que dominam o sistema de pensamento dos poetas inspirados. A água da primeira fonte permite esquecer toda a vida humana, e a segunda deve permitir conservar em memória tudo aquilo que viu e ouviu no outro mundo. Por outro lado, Alétheia é o nome de uma das nutrizes do grande deus oracular, Apolo.

A Palavra da Verdade é Justiça

Díke e Alétheia estão intrinsecamente ligadas, pois Alétheia é a mais justa de todas as coisas, e fundamentalmente sua potência é a mesma da Díke. A potência da Alétheia abrange portanto um duplo domínio: mântica e justiça. O saber mântico adquirido através da “água de Memória” eleva ao status de Poeta, o “vivo” dentre os mortos.

No pensamento arcaico, três domínios se distinguem: Poesia, Mântica e Justiça, que correspondem à três funções sociais, nas quais a palavra desempenhou um papel importante antes que se tornasse uma realidade autônoma, antes de ser elaborada pela Filosofia e pela Sofística, uma problemática da linguagem. Poetas, Adivinhos e Reis de Justiça tem em comum o mesmo dom da vidência, e dispõe do mesmo poder e recorrem às mesmas técnicas (DETIENNE, 1988: 24-32). Revelam-se como Mestres da palavra, de uma palavra que se define através de uma mesma concepção da Alétheia.

Em um sistema de pensamento em que a “Verdade” não é um conceito, não seria possível dissocia-la do louvor, do relato litúrgico e das funções de soberania, da qual sempre se constituíra um aspecto, uma dimensão. É preciso considerar que a palavra não constitui um plano do real distinto dos outros, definido por qualidades específicas, mas enquadra-se em um conjunto de conduta para a qual convergem os valores simbólicos. A todo momento a linguagem verbal se entrelaça com a linguagem gesticular, é a atitude do corpo que confere sua potência à palavra. Uma vez articulada, a palavra torna-se uma potência, uma força, uma ação. Se o mundo divino é por excelência aquele onde jamais uma decisão é tomada em vão e onde nenhuma palavra é gratuita, no mundo poético ela não goza de menor eficácia.

Toda a palavra é fundante, possui em seu âmago o poder latente de ‘realizar-se’; nomear é tornar real, proferir é fazer viver. A palavra é verdadeiramente concebida como realidade natural, uma parte da Phýsis. Associada às Erínias e as Chárites a palavra está sempre submetida às leis da Phýsis, à fecundidade e à esterilidade dos seres vivos. A palavra do adivinho e das potências oraculares, tanto quanto o verbo poético, delimita um plano de realidade: quando Apolo profetiza, ele “realiza”. É o domínio do irrevogável e do imediato. A palavra oracular não é o reflexo de um acontecimento pré-formado, mas um dos elementos de sua realização. Por assumir uma posição de intérprete da realidade e guardião da Sabedoria divina, o Bardo da Tradição oral era o personagem mais próximo dos deuses e sua expressão máxima.

O som é a cola sensual que une o natural ao sobrenatural. A voz do universo é som e ato criativo. Todo o ciclo humano deve pois ser representado num ciclo interminável de estórias e rituais, que funcionam como modelos metafóricos da realidade. Ritualizar é mantralizar, exprimir verbalmente o porquê é assim, e se a narrativa for alterada em quaisquer detalhes, a imagem do universo poderá sofrer um colapso e a sociedade sentenciada. Isto explica porque nas culturas de Tradição oral o poeta era o membro mais importante da comunidade.

Na Irlanda pré-cristã por exemplo, o poeta usufruía de condição social próxima ao rei, com a diferença que reis podiam ser mortos, mas a morte de um poeta era considerada o pior dos sacrilégios (CAHILL, 1999: 103). Um poeta talentoso tinha a fama de arruinar colheitas e até matar com uma única palavra. Para atingir tal habilidade sem contar com sistemas de escrita, se requeria o desenvolvimento de habilidades mnemônicas prodigiosas através de aprendizagem rigorosa. A crença de que o poeta conhecia a etimologia das palavras e consequentemente seu poder, tem eco igualmente na tradição judaico-cristã de que o universo foi formado e sustentado por Coros angelicais, a harmonia universal.

A palavra mágico-religiosa escapa à temporalidade essencialmente porque forma um todo com as forças que estão para além das forças humanas, forças que se apoiam unicamente sobre si mesmas. Em nenhum momento a palavra do Poeta busca a concordância dos ouvintes ou o assentimento social. Na medida em que a palavra mágico-religiosa transcende o tempo dos homens, ela transcende também os homens: não é a manifestação de uma vontade ou de um pensamento individual, nem a expressão de um agente, de um eu.

A Verdade institui-se então, no desdobramento da palavra mágico-religiosa, apoiada na Memória e articulada ao Esquecimento. Mas a configuração de Alétheia, traçada pela oposição fundamental entre Memória e Esquecimento, compromete outras potências que contribuem para defini-la: Díke, Pístis e Peithó. A Justiça é uma modalidade da palavra mágica, pois a Díke “realiza”. No mundo poético Díke não é menos indispensável, pois um elogio se faz com justiça, quando o Poeta canta um louvor, está seguindo a via da Justiça.

De fato, no sistema de pensamento religioso em que triunfa a palavra eficaz não há nenhuma distância entre Verdade e Justiça, ambas estão em conformidade com a ordem cósmica, constituindo o instrumento de que ela necessita. Pístis revela uma nova dimensão, é a confiança que vai do homem a um deus, ou à palavra de um deus; é a confiança nas Musas, fé no Oráculo, e está intimamente ligada ao juramento. É paralela à Fides dos romanos, correspondendo à noção indo-européia de credo. Peithó também é um aspecto necessário da Alétheia, e simboliza o poder de sedução. Por ter ridicularizado a Pístis, Cassandra foi privada do poder de persuadir, e o defeito é tão grave que ainda que sua palavra seja eficaz, Cassandra parece pronunciar somente palavras vãs. Privada de Peithó, ela está ao mesmo tempo privada de Pístis.

No pensamento mítico Peithó é uma divindade suprema, tanto em relação aos deuses quanto aos homens; tem o poder de fascinar, o sortilégio das palavras de mel. Sob a máscara de Thelxinoé ela é uma das Musas, e sob a de Telxiepeia, uma das sereias. Mas como estas últimas, ela é fundamentalmente ambivalente: benéfica e maléfica. A malvada Peithó é inseparável das “palavras carinhosas” que são instrumentos de engano, as armadilhas de Apáte, e relaciona-se com as potências negativas que são da mesma espécie de Léthe. É associada junto a Pothos e Hímeros, a deusa de sutis pensamentos, Afrodite.

Ruptura entre Alétheia e Mnemosýne

Nascido em 557-556 antes de nossa Era, Simônides de Ceos marca uma mudança na Tradição Poética pois é o primeiro a fazer da Poesia um ofício e receber benefícios por ela. Ao mesmo tempo situa a função poética a partir de um novo ângulo: o esforço de reflexão sobre a natureza da Poesia. É a Simônides que a Antigüidade atribui a famosa definição: “A pintura é uma Poesia silenciosa e a Poesia é uma pintura que fala”. Simônides marcaria o momento em que o homem grego descobre a imagem. Ele seria o primeiro testemunho da teoria da imagem, ou Mimesis (SETTI, 1958: 78).

A reflexão sobre a Poesia, sua função e seu objeto próprio, consuma a ruptura com a tradição do Poeta inspirado, que diz a Alétheia tão naturalmente quanto respira. Mas a desvalorização de Alétheia não é inteligível, a não ser em sua relação com uma inovação técnica, que é um outro aspecto fundamental da secularização da Poesia empreendida por Simônides. Toda uma Tradição atribui-lhe a invenção da Mnemotécnica, o que significa no plano poético a colocação em prática de procedimentos de memorização.

Até Simônides a Memória era um instrumento fundamental para o Poeta: função de caráter religioso que lhe permitia conhecer o passado, o presente e o futuro. Através de uma visão imediata, através da Memória, o Poeta entrava no além, atingia o invisível. Com Simônides a Memória torna-se uma técnica secularizada, uma faculdade psicológica que cada um exerce mais ou menos segundo regras definidas, ao alcance de todos. Não é mais uma forma de conhecimento privilegiada, nem como a Memória dos Pitagóricos, um exercício de salvação; é o instrumento que contribui para o aprendizado de um ofício. No lugar da mítica Alétheia Simônides reivindica a Doxa. Retomando as palavras de Platão, a retórica é “uma prática que exige uma alma dotada de penetração e audácia, e naturalmente, apta para o trato com os homens” (JAEGER, 1995: 335).

Exige portanto, qualidades intelectuais pois desenvolve-se no meio dos assuntos humanos, onde nada é estável, mas movediço, duplo e ambíguo. Produtos de uma mesma cultura política, a sofística e a retórica desenvolvem técnicas mentais solidárias. O Sofista aparece como o teórico que torna lógico o ambíguo, e que faz desta lógica o instrumento próprio para fascinar o adversário, e seu fim último, bem como o da Retórica é a persuasão (Peithó). O Lógos do Sofista e do Retórico fascina, persuade, encanta, mas não visa nunca, neste plano, dizer a Alétheia. Aqui também, a antiga relação da Alétheia com a Memória como função religiosa está definitivamente rompida.

Por volta do final do século VI a Grécia vê nascer, em meios particularizados, um tipo de pensamento mágico que é diametralmente oposto ao dos Sofistas. Dentre os valores que neste plano de pensamento continuam a representar através das renovações de significação o mesmo papel importante que tinham no pensamento anterior, é preciso pôr em evidência a Memória e a Alétheia. Na concepção dicotômica das seitas filosófico-religiosas, a vida terrestre está gangrenada pelo tempo, sinônimo de morte e esquecimento: o homem está jogado no mundo de Léthe, errante na campina de Áte.

Para transcender o tempo humano e se purificar do esquecimento as seitas elaboram uma técnica de salvação que constitui uma regra de vida, introduzindo técnicas psico-fisiológicas que ao termo da ascese apresentar-se-á diante dos guardiães da fonte Memória, onde beberá a água que irá purifica-lo de todo traço de temporalidade e consagrará definitivamente seu estatuto divino. Platão assimila parte desta ‘Lei de Adrastéa’: toda alma que segue a de um deus, contempla algumas verdades, mas quando já não pode seguir, se enche de vício e esquecimento. Entretanto, apesar do reconhecimento de que todas as criaturas do mundo natural partilham uma centelha divina e aspiram sempre à visão do belo, do bom e do justo, inexiste em Platão a continuidade da Tradição rapsódica. Nenhum Poeta jamais cantou nem cantará o que se eleva acima dos céus (CAHILL, 1999: 67).

A realidade, sem forma, sem cor, impalpável, só pode ser contemplada pela Inteligência, que é o guia da alma. E é na idéia eterna que reside a ciência perfeita, aquela que abarca toda a verdade. O pensamento de um deus nutre-se de inteligência e de ciências puras. O mesmo se dá com todas as almas que procuram receber o alimento que lhes convém. Por isto uma lei estabelece que no primeiro nascimento a alma não entra no corpo de um animal; a que mais contemplou gerará um Filósofo, um esteta ou um amante favorito das Musas; a alma de segundo grau irá formar um Rei legislador, guerreiro ou dominador; a do terceiro grau forma um político, economista ou financista; a do quarto, um atleta incansável ou um médico; a do quinto seguirá a vida de um Profeta ou adepto de mistérios; a do sexto, a existência de um Poeta ou qualquer outro produtor de imitações; a do sétimo, um operário ou camponês; a do oitavo, a de um Sofista ou Demagogo; a do nono, um Tirano (CAHILL, 1999: 71). O rebaixamento do antigo Poeta divino à mero transmissor de cultura assume em Platão seu ponto mais crítico, e jamais retomará seu antigo status.

Conclusão

Com o passar dos séculos, poucos ainda acreditavam que a inspiração doada pelas Musas fosse algo autêntico, e a maioria se contentou com imagens coloridas construídas pelos antigos para explicar suas fábulas mitológicas. Pelo contrário, os Poetas antigos acreditavam receber, por meio das Musas, o segredo com que Zeus ordenava o Universo. Zeus ensinava a Apolo, este às Musas, e estas despertavam as almas delicadas e insuperáveis dos Poetas. Estes, cantam aos deuses porque encarnam seu espírito, são os únicos que podem nomear a genealogia divina surgida do Caos.

Outra explicação para o tremendo privilégio do Poeta na sociedade arcaica é o Mito de Pan: Pan é o Espírito ilimitado da Alma do Mundo, tem que encontrar um limite, uma medida para manifestar-se, por isso necessita ao homem, que é limitado. Mas com a queda do homem, o grande Pan perdeu o auxiliar imprescindível de sua Arte, e lhe busca para voltar a expressar-se. Os verdadeiros artistas e testemunhas do deus Pan são os grandes Poetas, pois Pan é filho de Hermes, o deus da palavra. A magia é a criação pelo Verbo, a criação dos Poetas, então Pan é o Todo corporificado, ou seja, o espírito reunido ao corpo.

Quando os antigos Poetas invocavam Athena não o faziam para embelezar seu canto ou obter a gloria de seus coetâneos, senão porque acreditavam que com a presença da filha de Zeus, podiam alcançar a imortalidade, pois a santa poesia inspirada por Athena, a protetora das Artes, dava asas aos homens para remontar ao céu de onde caíram. Mas nesta viagem de regresso se devia cruzar o sombrio reino de Hades e ninguém podia conseguir sem a guia de Hermes, pelo qual este deus se denominava com epíteto de Psicopompos, que quer dizer: o acompanhante de almas. O portador das divinas mensagens das Musas senta-se ao lado dos Reis e dos grandes, como entre iguais, no topo da humanidade.

Com Píndaro, temos ainda a visão de que a educação dos Reis é a suprema tarefa dos Poetas nobres, assim como mais tarde Platão esperou influenciá-los e induzi-los a realizarem seus anseios e colocarem uma barreira no atrevimento da massa. Contudo, o mundo que ele tinha cantado de todo o coração entrou em franca decadência, e parece ser uma lei do espírito que quando um tipo de existência atinja seu termo, encontre a força necessária para reformular seu ideal, assim, a decadência da Arete grega produziu Píndaro; a da cidade-Estado, Platão e Demóstenes; a hierarquia da Igreja medieval, no momento em que ia transpor a linha de seu apogeu, produziu Dante.

 

Fontes

THEOGONIA. Opera et dies; Scutum; Fragmenta selecta Hesiodi. (edit. Friedrich Solmsen, R. Merkelbach, M. L. West). Scriptorum Classicorum Biblioteca Oxoniensis. Oxonii: E. Typographeo Clarendoniano, 1970.

CÍCERO. De natura deorum, III, 54 (ed. Pease), t. II, 1958, pp. 1100-1101.

Bibliografia

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CAHILL, Thomas. Como os Irlandeses salvaram a Civilização. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1999.

CORNFORD, F. M. Principium Sapientiae. The Origins of Greek Philosophical Thought. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1989.

DETIENNE, Marcel. Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

LANATA, G. Poética pré-platonica. Testemonianze e Frammenti (Biblioteca di Studi Superiori vol. XLIII), Florença, 1963.

JAEGER, Werner. Paidéia. A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

SETTI, A. La memória e il canto. Saggio di poética arcaica grega. Studi. Ital. Filol. Class. 1958.

VAN GRONINGEN, B. A. Les Trois Muses de l’Hélicon, L’Ant. Class., 1948.

VERNANT, J. P. “Aspects mythiques de la mémoire em Grèce”. In: Journ. Psych. 1959.

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