Revista Mirabilia 1


Resenha
Ernest Gombrich. Simbolic Images. Studies in the art of Renaissance II.
New York: Phaidon Press, 1978.
José Francisco de Moura

Gombrich é sem dúvida um dos mais significativos historiadores da arte de nosso século. Procurou, com sua metodologia, fornecer meios para que os historiadores entendessem os significados das imagens pictóricas em diferentes sociedades. Sua preocupação com o uso dos valores culturais de cada época aproximou-o com a história cultural, e serviu para se entender por que muitos historiadores o entendem como um teórico imprescindível.

No Simbolic Images, Gombrich, fornece-nos um resumo de sua metodologia e de visão de arte e história Para ele, achar o significado de cada obra ou imagem é tarefa bastante difícil, sobretudo por que elas, as imagens, ocupam curiosa posição entre a linguagem e as coisas da natureza. Em cada obra ou imagem, não existiria um significado único, mas significados possíveis de serem identificados. Gombrich, por isso mesmo, vai buscar, no transcorrer de suas obras, atestar como vários “níveis de significado” podem estar presentes em qualquer interpretação (p. 2).

Gombrich vai se utilizar do conceito de Representação no tradicional sentido de presença de algo ausente, mas vai impor a ele as devidas reservas: “É característica da Representação que a interpretação nunca pode ser levada além de um certo nível de generalidade” (p. 3). A escultura, por exemplo, não só abstrai da cor e da textura como não pode significar alguma escolha além dela mesma. Ela não seria a presença de algo ausente, mas a própria corporificação, a própria entidade representada.

As relações entre escrita e texto também são problematizadas. Para Gombrich, nunca é possível a um dado trabalho de arte reconstruir o texto que pretende ilustrar, já que a “ilustração” pode ser feita de diversas formas. Para ele, é impossível a uma descrição verbal ser tão particularizada como uma pintura, mesmo que o texto a estimulá-la forneça um padrão para o artista.

Já com relação aos textos atrelados às imagens, Gombrich acha que a saída é considerá-los como parte da iconografia. A solução dos quebra-cabeças iconográficos se daria por uma mistura de sorte e experiência. A interpretação dos motivos iconográficos começaria com reconstrução de um pedaço de evidência perdida, medida esta que ajudaria o iconologista a identificar a estória, desvendando o significado daquela naquele contexto particular (p. 7). Significado seria, assim, determinado mão só pela tradição, mas também pelo contexto (p. 8).

Gombich se distancia de Panofsky ao considerar que os símbolos teriam significado em si. Os símbolos iconográficos, pelo contrário, funcionariam mais como metáforas, e só atingiriam significado específico em um dado contexto (p. 16).

Qualquer ação humana, incluindo a pintura de uma quadro, seria resultante de muitas, senão inúmeras, causas que contribuem (p. 17). Ao olhar um trabalho de arte, nós sempre projetamos algum significado adicional que não é dado. A Arte estaria, dessa forma, sempre aberta a pensamentos póstumos. Ninguém poderia argüir sobre o significado se uma pintura fosse preservada fora do contexto (p. 19).

Ao insistir no primado da contextualização do significado, Gombrich se afasta de diversos historiadores da arte na pretensão de reconstituir as intenções do autor. Para ele, esta tarefa é considerada impossível devido ao fato de estarem envolvidos na elaboração de uma imagem vários elementos inconscientes. Os historiadores da arte devem insistir na instância do significado, e, para alcançá-lo, a erudição seria o melhor caminho. Todo artista, principalmente os Renascentistas, recorrem a muitas estórias e episódios mitológicos, dos quais faz relação. Cabe ao historiador conhecer essas narrativas míticas para orientar e basear sua interpretação. Sem conhecê-las, o historiador pode ser levado a fazer interpretações errôneas ou cair no externalismo histórico apressado, postura que Gombrich chama de “Leitura Fisiognômica”.

Uma das saídas encontradas por ele na busca dos significados seria aplicar o primado dos gêneros à arte, já que seria por causa dos gêneros que a identificação das figuras representadas seria possível (p. 5).  Os gêneros teriam, em si, uma história própria, com certa autonomia, tal como a noção de Campo, de Bourdieu. Esta história dos gêneros, essa trajetória dos estilos, é conceituada por Gombrich como Tradição. A Tradição, dessa forma, seria a característica determinante na explicação dos estilos.

Gombrich se opõe aqueles que consideram que o pintor renascentista não tinha vontade própria, sendo meramente um executivo das ordens dos mecenas. Para ele, os pintores tinham admirável repertório sobre o qual se debruçavam para fazer suas escolhas, adequando-as aos interesses do patrono (p .9).

Já no intuito de responder a complicada questão da mudança dos estilos e de seus respectivos vínculos históricos, Gombrich recorreu ao conceito de Função. O conceito, porém, não foi sistematizado, ora referindo-se a instituições, ora a simples exigências valorativas dos consumidores e apreciadores das obras. Gombrich, que tentou fugir do que chamou de holismo hegeliano, caiu, a nosso ver, nas armadilhas de um dos conceitos de seus mais prediletos herdeiros, o conceito de Função, próprio do culturalismo de tonalidade funcional-estruturalita.

É na análise das mudanças que Gombrich acaba se encontrando com Panofsky. A nosso ver, ambos, cada um a seu modo, insistiram na perspectiva de considerar a obra de arte como representação de um elemento coletivo que homogeneiza as relações sociais. Tanto o último Gombrich como Panofsky tendem, em essência, a considerar que a cultura de um povo poderia de certa forma reduzir-se à produção artística e à expressão perceptiva de suas elites.

Um dos problemas para os historiadores usarem as obras de Gombrich é o fato dele considerar as imagens de todas as sociedades como objetos de arte, o que não deixa de ser uma visão essencialista e anacrônica. Em relação aos vasos gregos, por exemplo, a abordagem de Gombrich não os problematiza como objetos culturais com especificidade histórica, o que o obrigaria, antes de pensar no estilo, no gênero ou na tradição, a ter que considerá-los como objetos de uso prático e bens de prestígio. Gombrich, tendo sempre o Renascimento em mente, acaba por generalizar suas características para outras épocas e contextos.

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