Revista Mirabilia 1


Resenha
Sobre o ensino (De Magistro) e Os sete pecados capitais, de S. Tomás de Aquino.
Trad. e estudos introdutórios de Luís Jean Lauand.

São Paulo: Martins Fontes, 2001, 147 p.

Lênia Márcia Mongelli
USP
ABREM – Associação Brasileira de Estudos Medievais

Há muito tempo o professor Luís Jean Lauand, da Faculdade de Educação da USP e especializado em Filosofia da Educação Medieval, vem se dedicando ao estudo da obra de S. Tomás de Aquino. O título de que ora trataremos segue-se a Verdade e Conhecimento (de 1999) e a Cultura e Educação na Idade Média (de 1998), contendo, este, quatro capítulos sobre o dominicano.

Em todas elas, a que o leitor tem acesso pela sempre bem cuidada edição da Martins Fontes, o critério é seletivo: são antologiados alguns textos representativos do complexo pensamento tomista (Verdade e Conhecimento tem edição bilíngüe), acompanhados de introdução histórica e analítica, além de numerosas notas, anexos etc. – num esforço de esclarecer termos que hoje mudaram de significação e de apontar nuanças de um raciocínio freqüentemente hermético, de difícil interpretação pelo não especialista. Afinal, Lauand tem uma espécie de compromisso com essa tarefa de divulgação do Aquinate: o site que ele pôs à disposição dos consulentes (www.hottopos.com), onde são editadas em torno de dez revistas co-produzidas junto a universidades européias, traz numerosos ensaios e artigos de “tomistas” nacionais e estrangeiros.

Já se sabe das limitações de qualquer antologia: gosto pessoal, maior ou menor representatividade do conjunto, recortes do excerto etc. Se tudo isto não for muito bem pensado, o resultado malogra. Mesmo aqui, em que Lauand está cônscio destas dificuldades, ressentem-se algumas lacunas, que, supridas, seriam de grande utilidade ao iniciante: falta, na Introdução, uma visão de conjunto da obra de Tomás, onde se fale do sentido e da importância de suas Summa, tanto para a evolução de seu próprio pensamento, quanto para a identidade do rico e conturbado século XIII; ou, no histórico do período, um rastreamento mais preciso dos predecessores de que suas originais idéias são devedoras. Contudo, os temas escolhidos - o “ensino” e “os sete pecados” - são de modo a instigar o interesse dos curiosos, quando menos pela modernidade de tantas das proposições de Tomás de Aquino. Lauand chama a atenção para estimulantes analogias entre “ontem” e “hoje”.

O século XIII é o de Tomás de Aquino e de Aristóteles, num abraço tão estreito, que a época seria mal compreendida sem os esforços críticos de um e a filosofia “materialista” de outro. Nascido (1224/5 – 1274) pouco depois da fundação da famosa Universidade de Paris, onde viria a lecionar por duas vezes,  Tomás viveu num momento em que a Igreja passava por profundas reformas, em que nasciam as ordens “mendicantes” (franciscanos e dominicanos), já sofrendo duras perseguições por seu ativismo urbano, e em que os estudos do trivium e quadrivium estavam em plena evolução, com a criação de numerosos centros universitários.

O ideal de pobreza dos dominicanos não agradou à família aristocrática de Tomás, que tinha para ele outros destinos e que tentou impedir por todos os meios – inclusive mantendo-o em cativeiro privado – sua entrada na Ordem. Perseverante, venceu a oposição e fez o noviciado em Paris (entre 1245 e 1248), ordenando-se aos vinte e quatro anos, enquanto o Ocidente se preparava para a sexta Cruzada. Foi naquela cidade que iniciou sua fértil carreira como professor, ali “estagiando” por duas vezes, datando de então seus primeiros escritos, inclusive o conhecido Comentário sobre as sentenças de Pedro Lombardo.

Contudo, o melhor de sua produção foi realizado durante o tempo em que esteve ensinando na Itália (Summa contra gentile) e, depois, durante sua segunda regência de cátedra em Paris (Quaestiones disputata) – sendo que as Questões podem ser consideradas ensaios de interpretação dos escritos aristotélicos. Portanto, um pensador com olhos e ouvidos muito abertos para a chegada do Peripatético às plagas ocidentais, trazido por tradutores árabes e judeus.

Se a originalidade de Tomás de Aquino atua em várias direções; se seu universalismo é de molde a não desprezar conhecimentos que advinham de fontes pagãs, desde que a serviço da reafirmação da indiscutível autoridade de Deus - sua contribuição mais significativa para a posteridade foi a delimitação dos métodos próprios da Filosofia e da Teologia: embora seja absolutamente necessário distinguir Razão e Fé, também o é sua aproximação; a doutrina deve estar fundada em demonstração racional, para evitar erros de interpretação que nos desviem da Verdade.

A Teologia baseia-se na Revelação, em conhecimentos de ordem sobrenatural, que  podem não ser inteiramente penetráveis; a Filosofia conhece pela argumentação, buscando racionalizar os fundamentos de seus princípios; porém, há muitíssimos pontos comuns nas diferenças de ambos os percursos: nem a revelação pode ser enganosa, porque tem Deus na origem, nem o pode a razão, quando usada corretamente, resultando daí  relações verdadeiras e inteligíveis. Caso uma conclusão filosófica entre em contradição com o dogma, é porque tal conclusão é racionalmente falsa. Se temos a opção de compreender para melhor crer, sairemos fortalecidos de nosso mergulho nas Escrituras. A lição de que uma “teologia revelada” (que parte do dogma) não é incompatível com uma “teologia natural” (elaborada pela razão) é o cerne da luminosa pedagogia de Tomás a seus contemporâneos, durante a plena vigência do neoplatonismo de extração agostiniana.

Surpreendentemente para um teólogo, Tomás de Aquino acata e desenvolve o empirismo aristotélico. Lauand insiste em mostrar o profundo interesse que ele tem pelo Homem, incluindo suas fraquezas e limitações. Partimos de Deus, mas o meio seguro de encontrá-Lo é pelas coisas sensíveis, que O espelham. A complexidade do real requer uma explicação que nos levará à sua essência, centrada na idéia do movimento – por exemplo, o movimento do universo, que se explica por uma série causal cujo primeiro termo é Deus. Por isso, tem tanta importância para Tomás a experiência, o agir humano e, dentro dele, a linguagem, por meio da qual o ser se manifesta e cuja decifração nos aproxima da tão ansiada totalidade.  Garimpa-se aqui a duradoura herança das Etimologiae, de Isidoro de Sevilha, e a ênfase na Gramática como a disciplina que por séculos comandou o ensino do trivium.

Falar de Tomás é ainda referir-se à exemplaridade do método escolástico de exegese, de uma hermenêutica que teve nas Quaestiones seu modelo acabado e longevo. Não bastava ler os grandes livros; era preciso discuti-los criticamente, segundo uma seqüência formal que o De Magistro ilustra com precisão: uma quaestio propõe um determinado tema, dividido em “artigos” que são algo como sub-capítulos do tema; o debate faz-se pelo confronto das objeções e contra-objeções, ao fim do qual é apresentada a solução, que, embora não esgote a verdade, assume a posição de defendê-la racionalmente. O método, pleno de possibilidades, não só dá voz ao adversário, com faculta discorrer sobre contrários – obrigando-o à clareza, à lógica, à ordem do raciocínio.

Os “pecados capitais” – que foram extraídos do De Malo e que estão igualmente discutidos na segunda parte da Summa Theologica – dão testemunho contundente da flexibilidade das posições interpretativas de Tomás, ao considerar que todos os vícios são uma desordem das paixões e que é benéfico qualquer exercício para tentar reorganizá-las, reconduzi-las ao “reto caminho”. Atente-se para as considerações acerca da “ira”: o aspecto “formal” dela suscita o desejo de vingança; mas seu aspecto “material”, as alterações fisiológicas que provoca (por exemplo, o calor do sangue no coração), evocam a força da natureza humana que, se devidamente administrada por nossa alma racional, pode conduzir ao bem. E mais: porque a luxúria é o mais temível dos pecados capitais? Por causa do enorme prazer que proporciona, exigindo, em contrapartida, maior zelo da razão, a encarecer, portanto, a difícil conquista daquele bem – que é, afinal, o devaneio de qualquer ínfimo mortal.

Como se observa pelas belas mostras colhidas por Lauand, a filosofia de Tomás de Aquino parece inesgotável e atualíssima: talvez por incidir no esforço de ensinar uma metafísica do ser humano como substância cuja forma potencial está contida no próprio ato de existir. Compete a cada um buscar desenvolvê-la, oferecendo o melhor de si.

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