Mirabilia
1
Revista
Eletrônica de História Antiga e Medieval
Journal
of Ancient and Medieval History
December
2001
É com muita
alegria que apresentamos à toda comunidade acadêmica o primeiro
número da Revista Mirabilia. Trata-se de um sonho há
muito acalentado por nós e que agora se realiza: através da
INTERNET levar ao público brasileiro, estudantes e professores
universitários, o melhor da produção internacional na
área de História Antiga e Medieval. Além disso,
desejávamos mostrar que em nosso país, apesar de todas as dificuldades
presentes no cotidiano universitário, podemos e somos capazes de ter
idéias em sintonia com o que se realiza nos grandes centros internacionais.
E talvez essa seja a melhor palavra capaz de definir esse projeto da Mirabilia:
sintonia.
Para este primeiro número, decidimos abrir o leque temático e convidamos muitos colegas para participar. Não oferecemos nenhuma restrição: que eles nos mostrassem o que têm de melhor, o que gostam de pesquisar e os temas que atualmente desenvolvem e pesquisam em seus centros. Assim, oferecemos a vocês 14 textos de colegas do Brasil, Argentina, Espanha e Alemanha.
Curiosamente, os artigos que recebemos mostram uma certa harmonia temática. Basicamente, versam sobre a mulher, a arte e os estudos lulianos. As exceções são os textos de Edrisi Fernandes (UFRN) - que trata da forma com que o Jñâna Yoga foi ensinado pela escola Vedânta, fundada por Bâdarayana (c. 300-100 a C.), um importante aspecto da tradição hindu, Gilvan Ventura da Silva (UFES) - que analisa a história das diferentes correntes historiográficas que abordaram a queda do Império Romano -, Francisco Bertelloni (UBA) - sobre o pensamento político no final da Idade Média - e Alexander Fidora (J. W. Goethe-Universität), que aborda a utilização dos textos de Isidoro de Sevilha por Domingo Gundisalvo e a Escola de Tradutores de Toledo. São todos textos instigantes, que navegam entre temas complexos mas sempre de uma forma suave.
Direi algumas breves palavras a respeito dos outros prestigiados articulistas. Sobre a mulher grega - um dos temas mais fascinantes da atualidade, a chamada História do Gênero -, temos os textos de Maria Regina Cândido (UERJ) sobre o mito de Medéia, Moisés Romanazzi Tôrres (UFRJ) e a condição feminina na Grécia clássica. Rafael Ramón Guerrero (Universidad Complutense de Madrid - España) - um dos maiores islamistas da atualidade - nos fala da concepção do amor e do erotismo, de Platão às Mil e uma Noites, numa fina erudição que navega por Plotino, São Bernardo, Algazel, Ibn 'Arabi de Múrcia, Avicena, Ibn Hazm de Córdoba, até chegar a uma história contada pela eterna e atraente Sherazade (Šahrazad). Ramón Guerrero nos leva a um mundo amoroso fantástico através de um caminho mágico e cheio de devaneios sutis.
Por fim, Jordi Pardo Pastor (Barcelona) trata da imagem do cavaleiro perfeito desenvolvida nos Livros de Cavalaria, a influência dos textos judaicos, para desembocar na imagem feminina tratada por Ramon Llull (1232-1316) essencialmente nas obras literárias Blaquerna e Livro das Maravilhas: o feminino associado ao desejo da luxúria; como o herói cavaleiro, ascético e puro deve fugir das tentações da carne para trilhar uma vida ascética que o leve à vida eterna.
A História da Arte cada vez mais atrai leitores e pesquisadores. Nesse aspecto, esperamos que a Mirabilia proporcione uma útil bibliografia e um belo material iconográfico para deleite visual. Nosso primeiro número não poderia estar melhor ancorado: quatro artigos que analisam obras de arte. Metodologia de ponta para as reflexões dos interessados nas conexões entre História e Arte.
José Francisco de Moura (UFRJ) faz uma interessante análise das imagens de vasos gregos e discute o conceito de arte aplicado àquele período. Patricia Grau-Dieckmann (UBA) trata influência das histórias apócrifas na representação artística cristã da fuga da Sagrada Família para o Egito, analisando quatro belas imagens. Adriana Zierer (UFF) aborda a simbologia medieval da maçã , na tradição céltica e na literatura cavaleiresca, como é o caso de Geoffrey de Monmouth. Nora Marcela Gomez (UBA) desenvolve o tema do corpus apocalíptico dos Beatos, um motivo artístico que teve muito sucesso na Idade Média, com mais de trinta códices do século IX ao XIII.
Por fim, os artigos relacionados a Ramon Llull (1232-1316). Como se sabe, a publicação sistemática das obras de Llull tanto por parte do Raimundus Lullus Institut (ROL, Freiburg) quanto pelo Patronat Ramon Llull (NEORL, Palma) incentivou enormemente os estudos a respeito desse importante filósofo medieval por todo o mundo. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, com sede em São Paulo, segue de perto este boom editorial acadêmico e permite o acesso direto às fontes lulianas - além do trabalho de tradução e análise das fontes lulianas desenvolvido por mim na UFES junto aos grupos de estudos medievais, trabalho ligado ao Instituto na qualidade de filial.
Dessa maneira, a Revista Mirabilia acolheu 3 artigos que tratam do beato catalão: Ciléa Dourado (UFRN) desenvolve o tema da ética luliana e seus temas subordinados: os correlativos, a liberdade para praticar o bem, a consciência da existência do mal e a prática das virtudes como um anteparo moral para a salvação da alma; Ricardo da Costa (UFES) analisa a situação política dos reinos de Maiorca e Aragão no tempo de Llull e como o beato se posicionou diante dos problemas práticos resultantes das disputas nobiliárquicas, e Jordi Pardo Pastor, do qual já falamos, se vale da imagem do cavaleiro ascético luliano para abordar o pecado da luxúria e a imagem feminina associada ao pecado.
Acreditamos que esse time de articulistas honra enormemente o primeiro volume da Revista Mirabilia. Com eles nos apresentamos ao mundo. Vida longa à Mirabilia.
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